Uma breve reflexão para o início de 2015

Primeiro dia de 2015 –  O calor escaldante do início de janeiro no Brasil é sempre prenúncio de um ano ainda mais quente na política. A presidenta Dilma Rousseff acaba de subir a rampa do Palácio do Planalto e fez o discurso, dando início ao seu segundo mandato. Mas sem dúvidas este será um dos governos mais fragilizados dos últimos anos, não apenas pela crise da Petrobras, explorado diuturnamente pela grande mídia, como também por representar o fim do ciclo do PT, já evidenciado pelas mobilizações do povo brasileiro em 2013 nas chamadas “Jornadas de Junho”, quando o movimento de massas mostrou que já não se sente mais representado pelo antigo Partido dos Trabalhadores.

“A VACA TOSSIU”

Aqueles que ainda tinham alguma esperança em uma guinada à esquerda por parte da “coração valente” tomaram mais um banho de água fria esta semana com o anúncio de medidas que dificultarão o acesso a diversos benefícios previdenciários como o seguro-desemprego e o auxílio-doença [1], mesmo tendo a presidenta afirmado em setembro durante a campanha que não mexeria em direitos trabalhistas “nem que a vaca tussa” [2]. Medidas que, caso aprovadas, atingirão principalmente os trabalhadores mais jovens e precarizados.

Esse anúncio apenas reafirma a política em andamento de ajustes contra os interesses do povo e ataques aos trabalhadores que enfrentaremos neste ano, e que começou já na primeira semana após o segundo turno, quando Dilma anunciou o aumento da taxa de juros para agradar aos mercados, e que seguiu com as nomeações para a composição do futuro ministério.

Se durante a campanha eleitoral Dilma atacou as “medidas impopulares” que seriam adotadas por Armínio Fraga como Ministro da Fazenda caso Aécio fosse eleito, não tardou em adotar a mesma política econômica rejeitada pelo povo brasileiro nas urnas em 2014. A indicação de Joaquim Levy para a Fazenda, um alto executivo do Bradesco formado pela Univesidade de Chicago, indica que 2015 será um ano de austeridade, com cortes nos investimentos sociais e arrochos salariais, seguindo os ditames do credo neoliberal.

O filósofo e professor da USP Vladimir Safatle chamou de “estação das cerejas vermelhas” [3] esse fenômeno que acontece no Brasil a cada quatro anos, quando a “esquerda sazonal” se pinta de vermelho e adota no discurso a retórica da luta de classes e contra o sistema financeiro (mesmo sendo o governo que garantiu os maiores lucros bancários da História), terminando de forma abrupta ao fim do segundo turno, quando as árvores voltam a dar seus frutos amargos.

FRUTOS AMARGOS

Alguns governistas comemoram a indicação de Juca Ferreira (PT) para o Ministério da Cultura, esquecendo de todos os outros frutos amargos que teremos que engolir para além da equipe econômica: Armando Monteiro (PTB), ex-presidente da CNI, uma entidade patronal, no Desenvolvimento; Kátia Abreu (PMDB) que presidiu a bancada ruralista na Câmara e recebeu do Greenpeace o prêmio “Motosserra de Ouro” [4] no Ministério da Agricultura; além de “brincar com fogo” [5], como ironizou Guilherme Boulos da coordenação nacional do MTST, ao indicar Gilberto Kassab (PSD) para o Ministério das Cidades.

Outra notícia que causou rebuliço entre aqueles que lutam por uma educação pública de qualidade foi a nomeação de Cid Gomes (PROS) para comandar a pasta. O ex-governador do Ceará em entrevista já afirmou que professores “deveriam trabalhar por amor, e não por dinheiro”[6]. Vamos aguardar para ver se ele também trabalhará por “amor”.

E nem mesmo às vésperas dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos que serão realizados em 2016 no Rio de Janeiro os esportes receberam a devida importância. O Ministério dos Esportes foi “chutado a escanteio” [7], como escreveu o jornalista Juca Kfouri após a escolha de George Hilton (PRB), pastor da Igreja Universal do Reino de Deus indicado por Marcelo Crivella para comandar a pasta.

Durante uma das campanhas presidenciais mais polarizadas que o Brasil já viu nos últimos anos muitas pessoas, preocupadas com o retrocesso representado pelos tucanos, pediam nas ruas votos para o PT contra um suposto “avanço da direita”. Só esqueceram que a direita já está muito bem encastelada no atual governo e é importante que façamos essa caracterização para que busquemos construir uma alternativa de esquerda coerente nos próximos quatro anos, não se deixando confundir com a oposição pela direita encabeçada pelo senador Aécio Neves (PSDB), pior senador do país em ranking recente da revista Veja [8] que deu o que falar nas redes sociais.

UMA OPOSIÇÃO COERENTE PELA ESQUERDA

A grande novidade dessas eleições foi a ex-Deputada Federal Luciana Genro, candidata à presidência da República pelo PSOL que ficou em quarto lugar com cerca de 1,6 milhões de votos, logo depois dos três ditos “principais candidatos” que a gaúcha corretamente batizou de “irmãos siameses” durante os debates por representarem, mesmo que com suas pequenas nuances, o mesmo projeto da velha política.

Alguns analistas se apressaram em afirmar que junho de 2013 não teve reflexo nas eleições em 2014, já que o pleito foi decidido entre dois velhos partidos da ordem. Estão enganados. O maior levante popular da História do Brasil representou um divisor de águas na realidade política brasileira, revelando o desgaste não só do governo do PT, mas também do próprio regime político e sua democracia formal.

Entretanto, não podemos esquecer do pressuposto que, segundo Engels, as eleições são sempre uma expressão distorcida da realidade. A cobertura desigual por parte da grande mídia e a influência nefasta do poder econômico nas campanhas são alguns elementos que contribuíram para que grande parte dos indignados enxergassem erroneamente uma alternativa real conectada com as demandas de junho na figura da Marina Silva (PSB), que teve uma subida meteórica nas pesquisas de intenção de voto após a morte de Eduardo Campos, se apresentando com a roupagem da “nova política”, embora com as mesmas velhas práticas.

A “nova política” da candidata começou a descer pelo ralo quando capitulou aos setores mais conservadores e reacionários da sociedade brasileira abandonando o programa LGBT de seu partido [9] em menos de 24 horas após declarações contrárias do pastor Silas Malafaia em sua conta no Twitter. Sua queda nas pesquisas aconteceu ao mesmo tempo que Luciana Genro se mostrou fiel ao espírito de junho, defendendo as pautas dos Direitos Humanos e sendo inclusive a primeira candidata na história política brasileira a mencionar a homofobia e a transfobia em um debate presidencial.

Outra parte dos descontentes votaram ainda em Aécio Neves (PSDB), mais pelo sentimento anti-PT do que por uma afinidade ideológica com a direita e com seu programa. Para além deles, o número de abstenções foi o maior desde 1998 (27,6 milhões) que juntos aos votos brancos e nulos totalizaram 29,03% do eleitorado nacional.

Luciana Genro se apresentou como uma alternativa de esquerda coerente ao defender os interesses da maioria do povo com seu programa [10] que incluía, dentre outros pontos, a auditoria da dívida pública, como manda a Constituição, e uma revolução tributária, invertendo a lógica atual onde os trabalhadores e a classe média pagam proporcionalmente mais impostos. Os “ricaços” pagariam mais impostos, garantindo os recursos que custeariam os direitos básicos dos mais necessitados como saúde, educação, moradia e mobilidade urbana.

ENQUANTO ISSO, NA CIDADE MARAVILHOSA…

No Rio de Janeiro o resultado das eleições reafirma a influência de junho de 2013 no pleito eleitoral, com a soma dos votos nulos, brancos e abstenções superando o total da votação de Pezão, governador eleito no segundo turno e que tomou posse esta manhã na ALERJ. É inegável o desgaste que as mobilizações populares causaram na figura do ex-governador Sérgio Cabral e do prefeito da cidade do Rio, Eduardo Paes, e que refletiram na rejeição massiva à candidatura do Pezão.

É importante destacarmos a atuação do Tarcísio Motta, professor de História do Colégio Pedro II que foi o candidato do PSOL ao governo do estado, uma novidade esperançosa frente a um cenário que contava ainda com Marcelo Crivella (PRB), Garotinho (PR) e Lindbergh Farias (PT). Tarcísio representou bem as vozes das ruas nos debates televisivos, sendo hoje um dos nomes mais importantes da esquerda fluminense que superou todas as expectativas obtendo mais de 700 mil votos [11].

E o PMDB já prepara o terreno para o sucessor de Eduardo Paes na prefeitura da capital, Pedro Paulo [12], recém-eleito Deputado Federal. Nos próximos dois anos temos que construir uma alternativa coerente que dê respostas às demandas da população carioca nas próximas eleições municipais em 2016. A experiência da “Primavera Carioca” com a campanha de Marcelo Freixo (PSOL) à prefeitura da Cidade Maravilhosa em 2012 nos deu o tom da alternativa que devemos construir nesse próximo período.

A crise urbana no Brasil vem se agravando a cada ano, com as grandes metrópoles se tornando verdadeiros “barris de pólvora” e epicentros dos protestos populares. A especulação imobiliária que favorece os interesses privados das empreiteiras vêm expulsando os trabalhadores mais pobres para áreas cada vez mais periféricas e carentes de infraestrutura e serviços. E os mega-eventos como as Olimpíadas pioram ainda mais esse cenário, servindo de justificativas às grandes intervenções urbanas operadas pelas mesmas construtoras que são as principais investidoras das campanhas eleitorais dos partidos da ordem.

Aliado a isso temos a política de incentivo à indústria automobilística e ao transporte individual em detrimento do transporte coletivo, que levou as grandes cidades ao atual colapso de mobilidade. Não esqueçamos que o estopim que levou milhões de brasileiros às ruas em 2013 foi o aumento de 20 centavos no valor das passagens. Ainda assim nossos governantes se mostram indiferentes às demandas da população por mais direitos e já foi anunciado um reajuste de 13,3% nas tarifas dos ônibus municipais que passam a custar R$3,40 a partir deste sábado [13]. A pergunta que fica no ar é: Cidade Maravilhosa para quem?

“UM ESPECTRO RONDA A EUROPA…”

E enquanto vamos construindo uma alternativa no Brasil, não podemos deixar de acompanhar a situação mundial. A crise econômica de 2008, causada pelas políticas neoliberais que apostam na desregulamentação das finanças e na “mão invisível” do mercado, quase levou ao colapso os velhos centros do Capitalismo global, Estados Unidos e Europa.

A crise mundial abriu um novo período histórico, cujos desdobramentos já se mostraram por aqui de forma contundente em 2013, quando o Brasil entrou na rota dos indignados. Hoje temos que ficar de olho principalmente na Espanha e na Grécia, onde o Podemos e o Syriza são dois novos partidos de esquerda que estão em primeiro lugar em todas as pesquisas, tendo influência nas massas com suas políticas contra as medidas de austeridade impostas pela Troika.

É importante lembrar que nas primeiras eleições após o movimento dos Indignados na Espanha (15-M), quem venceu o pleito foi o PP, partido conservador de Rajoy, o que levou muitos a alardarem a força da direita no país. Mesmo assim, menos de dois anos depois, uma alternativa pela esquerda forjada no calor das lutas nas ruas e praças surgiu com força. Um fenômeno que poderá por fim ao bipartidarismo entre o PSOE e o PP, equivalentes à polarização PT-PSDB no Brasil.

E não esqueçamos dos protestos que acontecem no coração do império estadunidense, desde os movimentos do tipo “Occupy” iniciados em 2011 que se espalharam pelo mundo até os recentes levantes da população negra contra o racismo institucional evidente no assassinato do jovem Michel Brown e de Eric Garner que, negros e pobres, são os alvos preferenciais das forças de repressão. É eloquente o caso do ajudante de pedreiro Amarildo que ganhou repercussão mundial em 2013 após sequestrado, torturado e assassinado pela polícia “pacificadora” na Rocinha, favela na Zona Sul carioca, tudo isso em nome de uma suposta “Guerra às Drogas” [14].

Os Estados Unidos vivem hoje a maior onda de mobilizações dos últimos tempos com milhares de pessoas que protestam contra as injustiças e desigualdades de um sistema judicial e de uma política de segurança racistas, que promovem na prática um massacre sistemático contra a juventude das periferias e favelas por todas as Américas.

CONCLUSÃO

Está claro o quanto é essencial que os ativistas, coletivos, sindicatos, movimentos sociais, partidos de esquerda e todos aqueles que lutam por um mundo mais justo e igualitário devem se preparar para mais um ano de implementação de políticas neoliberais e ajustes contra os trabalhadores.

É urgente que seja feito um debate honesto e democrático sobre as mudanças estruturais necessárias no Brasil e no mundo, sem esquecer que para isso teremos que enfrentar interesses poderosos, que defendem um sistema em que lucram às custas da miséria da maioria da população, e do qual não irão abrir mão facilmente. E tenhamos a certeza que é nas ruas, e não nas eleições, que será decidida a correlação de forças decisivas para essas mudanças. Um feliz 2015 de lutas para todos!

Fontes:

[1] Zero Hora – Saiba o que muda com as novas regras para seguro-desemprego, auxílio-doença e pensão por morte

[2] Estadão – Dilma diz que não muda direitos trabalhistas “nem que a vaca tussa”

[3] Folha de São Paulo – Esquerda sazonal

[4] MST – Kátia Abreu ganha prêmio “Motosserra de Ouro” por defesa do desmatamento

[5] Folha de São Paulo – Indicar Kassab é brincar com fogo

[6] Último Segundo – Ouça Cid Gomes repetir que professor deve trabalhar por amor

[7] Blog do Juca Kfouri – Dilma chuta o Esporte a escanteio

[8] Veja – Ranking do Progresso: os melhores parlamentares de 2014

[9] O Globo – Coordenador do núcleo LGBT da campanha de Marina deixa o cargo

[10] Programa de Governo Luciana Genro Presidenta

[11] O Dia – Tarcísio Motta comemora boa votação e avisa: “Aécio e Pezão nem pensar”

[12] O Dia – Prefeito quer Pedro Paulo eleito seu sucessor em 2016

[13] G1 – Preço de ônibus municipal do Rio tem reajuste de 13,3% e vai a R$3,40

[14] Juntos! – Cláudia e Amarildo: tragédias anunciadas na cidade “maravilhosa”

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