Roberto Carlos, o Rei da Censura

“Isenção” é o primeiro atributo para a obtenção de uma informação de qualidade segundo consta nos princípios editoriais do Grupo Globo, que ainda definem o jornalismo como uma “atividade cujo propósito central é produzir um primeiro conhecimento sobre fatos e pessoas”. [1]

Mas, aparentemente, essa busca pela “isenção” pode ser deixada às vezes de lado como aconteceu com a minissérie “Tim Maia, Vale o Que Vier”, sobre a vida do cantor Tim Maia, exibida pela Rede Globo em dois capítulos na quinta (1º) e sexta-feira (2) desta semana.

O especial é, na verdade, um “docudrama” feito através da reedição do longa metragem dirigido por Mauro Lima que estreou no ano passado, baseado no livro “Vale-Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia”, escrito pelo jornalista e produtor musical Nelson Motta, e que também deu origem ao espetáculo dirigido por João Falcão “Vale Tudo – O Musical” (2011), sucesso de público e crítica.

Contudo, para a exibição na TV, a emissora resolveu cortar alguns trechos, além de alternar as cenas do filme com alguns depoimentos, como do “Rei” Roberto Carlos, apresentado na televisão como um dos heróis na vida de Tim, embora aqueles que viram o filme no cinema tenham tido uma impressão oposta. [2]

“ESSE CARA SOU EU”

Roberto, natural de Cachoeiro de Itapemirim (ES), se mudou para Niterói na segunda metade da década de 50 e logo foi apresentado a um grupo de amigos na Tijuca que, além de Jorge Ben e Erasmo Carlos, contava com o saudoso Sebastião Rodrigues Maia. Juntos fundaram em 1957 o grupo de rock “The Sputiniks” que teve vida curta e terminou com a saída de Tim.

Entretanto Roberto Carlos acabou se tornando um sucesso conhecido nacionalmente ao estourar com a Jovem Guarda lançando em 1963 “Spilsh Splash”, gravada originalmente pelo cantor estadunidense Bobby Darin [3] com versão em português feita por Erasmo. Seu disco seguinte, “É Proibido Fumar”, manteve o cantor nas paradas de sucesso. Neste mesmo período Tim Maia estava de volta ao Brasil após uma temporada nos Estados Unidos de onde voltou deportado por roubo e posse de drogas.

É neste período, em meados da década de 60 quando Roberto apresentava na TV Record o programa “Jovem Guarda” ao lado de Erasmo e Wanderléa, que se deu o ocorrido relatado no livro e no filme e eliminado do especial exibido nas telinhas para preservar o mito e a imagem do “Rei”.

No longa Tim (Robson Nunes) invade o camarim de Roberto (George Sauma) que não dá atenção ao velho amigo e lhe entrega um par de botas velhas. Ao ser chamado de volta ao estúdio, pede que Tim espere por ele.

Após o final da gravação tenta escapar correndo, mas Tim o alcança e lhe pede ajuda, alegando não ter dinheiro nem para voltar para casa. Roberto Carlos o esnoba e manda que lhe entregue algum dinheiro o produtor do programa, que amassa as notas antes de entrega-las a Tim, que se sente humilhado. Toda essa sequência foi cortada da minissérie. [4]

Em seu lugar, assistimos aos depoimentos de Roberto Carlos, que diz ter dado oportunidade à Tim, além do próprio autor do livro, Nelson Motta. Para terminar ainda gravaram uma cena nova na qual Babú Santana (um dos intérpretes de Tim no filme) aparece dizendo: “E foi assim, rapaziada, que o Roberto Carlos lançou o gordo mais querido do Brasil!”, reabilitando o “Rei” em rede nacional.

A postura da Rede Globo atraiu críticas dos fãs e inclusive do diretor do filme Mauro Lima. O cineasta publicou uma mensagem [5] em sua conta no Instagram antes da exibição do especial pedindo que seus seguidores não o assistissem:

 “Aos seguidores que não viram ‘Tim Maia’ no cinema sugiro que não assistam essa versão que vai ao ar hoje e amanhã na Globo. Trata-se de um subproduto que não escrevi daquele modo, nem dirigi ou editei” 

O REI ESTÁ NU

E não é a primeira vez que vemos casos de censura envolvendo o nome de Roberto Carlos. É notável o caso recente da biografia “Roberto Carlos Em Detalhes”, do jornalista e historiador Paulo César de Araújo, resultado de 16 anos de pesquisa e que foi retirada de circulação em 2007 após um processo movido pelo cantor nas esferas cível e criminal contra a editora e o escritor. [6]

É possível conhecer um pouco mais sobre o imbróglio no livro “O Réu e o Rei”, que o autor escreveu para revelar os bastidores da disputa judicial. No livro Paulo César conta, por exemplo, como passagens do livro foram adulteradas no processo a fim de que o juiz aceitasse o argumento de que a obra feria a “honra e respeitabilidade” do cantor. Segundo o escritor, o juiz foi extremamente parcial em favor de Roberto Carlos e inclusive ameaçou fechar a editora. [7]

Outro caso recente aconteceu em 2013 quando uma notificação extrajudicial ordenou o recolhimento das mil cópias do livro “Jovem Guarda: Moda, Música e Juventude”, tese de mestrado de Maíra Zimmermann, professora da FAAP, faculdade em São Paulo. A alegação dos advogados é que o livro trazia detalhes sobre a trajetória do cantor e sua intimidade, além de uma caricatura na capa (ao lado). [8]

Talvez o título de “Rei” realmente faça jus ao autoritarismo de um monarca que não vem de hoje. Durante a ditadura militar no país, alguns artistas se tornaram colaboradores do regime, sendo protegidos e beneficiados enquanto passavam informações sobre o meio artístico, infestado de “subversivos”.

Um documento emitido pelo Centro de Informações do Exército (CIE) revela que jornais como O Pasquim faziam campanha contra artistas considerados aliados do regime militar. O informe do CIE sugere que esses “amigos da ditadura” que se “uniram à revolução (sic) de 1964 no combate à subversão” fossem blindados. E dentre os nomes podemos ver o nome do “Rei”, que fez sucesso na época com suas canções românticas e despolitizadas, em oposição àqueles artistas críticos ao regime que foram perseguidos. [9]

E o “Rei” já apoiou censura abertamente. No primeiro governo após os 21 anos de ditadura o presidente José Sarney (entulho da ditadura), ainda impregnado pelos valores autoritários do regime militar, resolveu através da Divisão de Censura do Departamento de Polícia Federal proibir no Brasil a exibição do filme “Je Vous Salue Marie”, de Jean-Luc Godard (pôster ao lado).

A alegação era que a obra era uma blasfêmia contra a Virgem Maria, embora a personagem no filme tenha engravidado mesmo sendo virgem, sequer contestando o dogma da Igreja Católica. Roberto Carlos não demorou a enviar um telegrama ao Palácio do Planalto:

“Cumprimento Vossa Excelência por impedir a exibição do filme Je Vous Salue Marie, que não é obra de arte ou expressão cultural que mereça a liberdade de atingir a tradição religiosa de nosso povo e o sentimento cristão da humanidade. Deus abençoes Vossa Excelência. Roberto Carlos Braga.”

O episódio é relembrado pelo jornalista Mário Magalhães [10] (autor da biografia Marighella – O Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo) que lembra ainda de um artigo publicado na Folha de S. Paulo em 1986 por Caetano Veloso onde menciona a “burrice de Roberto” ao apoiar abertamente a censura, uma “vergonha” para a classe artística.

Já a história de amor entre a Globo (que também apoiou a ditadura, não esqueçamos!) e o “Rei” vem de longa data, e todos nós já nos tornamos habituados a vê-lo todo mês de dezembro nos especiais de fim de ano que se tornaram tradição de Natal das famílias brasileiras. Uma relação tão profícua que o artista já vendeu mais de 200 milhões de discos em todo o mundo, sucesso garantido pela super-exposição na maior rede de televisão do país. Só para ficarmos em um exemplo, seu EP “Esse Cara Sou Eu” vendeu mais de 1,7 milhões de cópias no Brasil [11]. A canção foi um dos sucessos presentes na trilha sonora da popular novela “Salve Jorge”, de 2012.

Em 2011 a Beija-Flor foi a campeã do Carnaval Carioca ao desfilar com o enredo “A Simplicidade de um Rei” sobre a vida de Roberto Carlos, que contou com a participação do próprio, que desfilou no sambódromo em cima do último carro alegórico da escola. “Simplicidade” talvez seja uma dessas palavras que, assim como “isenção”, podem ter seus sentidos alterados para que signifiquem exatamente o oposto.

Esse malabarismo semântico esconde que na verdade faltou“isenção” para mostrar ao público a falta de “simplicidade” de um artista com o “Rei na barriga”.

Fontes:

[1] Princípios Editoriais do Grupo Globo

[2] R7 | Roberto Carlos autoriza ser retratado como amigo da onça em filme de Tim Maia

[3] YouTube | Bobby Darin – Splish Splash

[4] Sedentário & Hiperativo | Veja a cena do filme do Tim Maia que a Globo não quer que você veja

[5] Terra | Diretor de “Tim Maia” ironiza versão exibida pela Globo

[6] Folha de S. Paulo | Roberto Carlos pede retirada de circulação de sua biografia

[7] Folha de S. Paulo | Autor de “Roberto Carlos em Detalhes” lança livro sobre biografia proibida

[8] Pragmatismo Político | Roberto Carlos é o rei da censura?

[9] Documento do CIE (25/11/71)

[10] Blog do Mário Magalhães | Telegrama comprova que Roberto Carlos já apoiou abertamente a censura

[11] Wikipedia | Esse Cara Sou Eu

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