O amor mais forte que o ódio

O fato todos já devem conhecer: a redação da revista satírica francesa Charlie Hebdo foi atacada esta manhã (7) por três homens encapuzados que invadiram o local armados de metralhadoras e abriram fogo matando dez jornalistas, além de dois policiais durante a fuga, deixando outros quatro feridos em estado crítico. [1]

Lamentável a perda de todas essas vidas para o ódio e a intolerância. É fundamental ressaltar a importância da liberdade de expressão e de imprensa [2] (e não de empresa [3]) como direito humano fundamental e pré-condição para a democratização da sociedade e para a proteção e promoção de todos os outros direitos.

Cartum satírico que mostra Luís XVI e Maria Antonieta como uma besta de duas cabeças.

E em especial gostaria de deixar um tributo aos cartunistas que foram mortos no ataque: Stéphane Charbonnier, o Charb, que dirigia o jornal, Jean Cabu, Georges Wolinski e Bernard Verlhac, conhecido como Tignous, que com sua arte criticavam líderes religiosos e políticos de todas as matizes, remontando a tradição iconoclasta dos cartuns franceses que sacodem a vida política desde o Antigo Regime, sendo populares principalmente entre o povo mais pobre, geralmente iletrado, nos momentos que antecederam a Revolução Francesa (exemplo ao lado).

COMO TUDO COMEÇOU…

O semanário é conhecida por seu humor mordaz e suas capas e charges que causam polêmica na França há mais de 20 anos [4]. E os bicos das penas atacam em todas as direções: instituições, religiões e políticos franceses de todos os partidos.

1100719Ganhou notoriedade mundial em 2006 durante a onda de indignação causada por um cartum de Maomé publicadas pelo jornal dinamarquês Jyllands Posten [5]. A Charlie Hebdo preparou uma edição especial onde republicou as polêmicas caricaturas, além de uma outra na capa que – sob a manchete “Maomé dominado pelos fundamentalistas” – mostrava o profeta chorando e reclamando: “É duro ser amado por imbecis”. (à esquerda)

A iniciativa lhes rendeu um processo judicial por injúria movido pela Grande Mesquita de Paris, do qual foram absolvidos. As acusações foram rejeitadas pelo juiz que afirmou que a blasfêmia não é reprimida na França pois “numa sociedade laica e pluralista, o respeito por todas as crenças caminha a par da liberdade de criticar as religiões, quaisquer que elas sejam”. [6]

I6HTgJá em 2011 uma outra caricatura de Maomé voltou a causar polêmica. A volta da Sharia (lei islâmica) na Líbia rendeu uma crítica contundente na capa do jornal colocando com ironia o nome “Charia Hebdo” sobreposto ao cabeçalho original do periódico. Na imagem Maomé, o novo “chefe de redação” desafia: “100 chicotadas se não estão morrendo de rir”. (à direita) [7]

Foi desta vez que a redação sofreu seu primeiro ataque. Na madrugada que a edição estava saindo para as bancas, um coquetel molotov é jogado na sede do jornal, dando início a um incêndio. [8] Mas a equipe do humorístico não se deixou intimidar pelo ataque publicando na semana seguinte uma capa onde “faziam as pazes” mostrando um beijo entre um muçulmano e um homem representando o jornal sob o título “O amor mais forte que o ódio”. (imagem no topo)

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“EM 2022 FAÇO O RAMDÃ!”

A edição desta quarta-feira trouxe na capa uma caricatura intitulada “As previsões do mago Houellebeck” que mostra o escritor do livro “Soumissioun” (Submissão) vestido de mago e dizendo: “Em 2015 perco meus dentes e em 2022 faço o Ramadã!”. (ao lado)

O romance lançado hoje na França é uma ficção que conta sobre a eleição de um muçulmano à presidência na França no ano de 2022  instituindo dentre outros, a poligamia, o uso do véu e a conversão religiosa como políticas oficiais francesas. E o próprio narrador do romance, professor da Sorbonne – transformada em “Universidade Islâmica” – se converte ao Islã para não perder seu emprego. [9]

A história tem sido atacada por todos os lados, entre aqueles que comparam a obra à “1984” de George Orwell, e os que acusam o livro de “irresponsável” e “islamofóbico” abrindo caminho à extrema-direita xenófoba anti-imigração personalizada na figura de Marine Le Pen. [10]

O presidente francês François Hollande já reagiu ao ataque declarando que “trata-se sem dúvida de um atentado terrorista”, mas o professor de Relações Internacionais da PUC-SP alerta para que, embora segundo fontes policiais os autores do ataque tenham gritado “Vingamos o Profeta!”, em uma referência provável às charges, não devemos tirar qualquer conclusão precipitada. “É cedo para responsabilizar grupos islâmicos pelo ataque em Paris”, afirmou pouco após o incidente. [11]

Segundo ele, os preconceitos contra imigrantes aumentam e reforçam um sentimento nacionalista que vem crescendo na Europa. O professor pondera ainda que não se deve excluir a possibilidades de ataques da extrema-direita francesa, como foi na Noruega há alguns anos. [12]

FAVORECIMENTO À ISLAMOFOBIA

Seria necessário escrever diversos outros textos para dar conta de falar das condições e da situação extrema agravada pela “Guerra ao Terror” que empurra esses grupos para o extremismo; do crescimento do Islamismo na Europa, e em especial na França [13]; e do próprio sentimento islamofóbico [14] e xenófobo promovido pela extrema-direita e por conservadores no país onde é proibido o uso de burca em público desde 2011 [15]. O assunto é vasto e requer a devida atenção.

Mas é certo que ataques como esses não ajudam em nada a situação dos muçulmanos em solo europeu. O próprio cartunista Charb, à época do incêndio na redação em 2011, declarou em uma entrevista que “por causa desses imbecis, todos os muçulmanos da França passarão por fundamentalistas”. [16]

charlie-hebdo-islamophobie-antisemitisme-carlos-latuff-2O cartunista brasileiro Carlos Latuff é conhecido por ser um grande apoiador da causa palestina e já ressaltou em uma charge a hipocrisia dos que consideram “liberdade de expressão” os recorrentes ataques e provocações ao Islã na mídia ocidental, embora sejam menos condescendentes acusando de “antissemita” qualquer crítica ao judaísmo e à política externa israelense.

Entretanto ele concorda que esse tipo de ação “só favorece ao discurso anti-islâmico e anti-imigração, cada vez mais forte na Europa” [17]. A ilustração (abaixo) que ele produziu condenando o atentado é clara: encapuzados atiram em direção do interior da redação do jornal, atingindo ao mesmo tempo uma mesquita que se encontra ao fundo, símbolo da religião islâmica.

7jan2015---o-cartunista-carlos-henrique-latuff-de-sousa-fez-uma-charge-nesta-quarta-feira-7-para-homenagear-os-mortos-no-ataque-a-sede-da-revista-charlie-hebdo-em-paris-franca-homens-armados-abriram-142

A cartunista Laerte compartilha dessa visão afirmando nas redes sociais que o ataque “vai beneficiar a extrema direita, que está crescendo na Europa e buscando criar uma cultura de ódio ao estrangeiro. Como no caso do WTC em 2001.” [18]

O Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM), que representa os muçulmanos na França, condenou o ataque como “bárbaro” e um “ataque à democracia e a liberdade de imprensa” [19], negando que esse tipo de violência seja fruto da religião islâmica.

CONCLUSÃO

As investigações já estão em andamento, e temos que condenar a escalada de ódio de todos os lados, condenando em especial os atentados à liberdade de expressão e crítica, fundamentais em uma sociedade plural, sem esquecer de criticar o papel das potências imperialistas como França, Inglaterra e Estados Unidos nos conflitos com o mundo árabe.

Contudo não podemos nos deixar cair no discurso fácil do “choque de civilizações” proposto pelo cientista político Samuel P. Huntington, segundo o qual as identidades culturais e religiosas seriam a principal fonte de conflitos entre os povos no mundo pós-Guerra Fria [20]. Esse discurso apenas esconde a História e os verdadeiros problemas políticos e econômicos que estão por trás desses conflitos, aparentemente religiosos.

E temos que ser cautelosos pois esses ataque serão instrumentalizado pela direita xenófoba e anti-imigração na Europa, estigmatizando os árabes e muçulmanos, bem como pela grande mídia em todo o mundo em seu discurso que sustenta a “Guerra ao Terror”.

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-O que você vai fazer na rua, Fiston? – A Revolução!

Quanto aos cartunistas, esses serão lembrados como os mestres que foram, como disse André Dahmer (autor de “Os Malvados” e “A Cabeça é a Ilha”) que ressaltou a importância de Wolinski para toda uma geração de cartunistas brasileiros como Ziraldo, Jaguar, Nani e Henfil. George Wolinski foi co-fundador da revista satírica “L’Enragé” durante a revolta dos estudantes franceses em maio de 1968, onde produziu cartuns com temática política (exemplo ao lado).

charbMas eu gostaria de ressaltar aqui a obra de Stéphane Charbonnier, o Charb, que também morreu esta manhã. Em uma de suas últimas charges publicadas ele ironizava os atentados na França mostrando sob o título “França segue sem atentados” um terrorista dizendo: “Aguardem. Temos até o fim de janeiro para fazer os votos”. [21]

Mas eu realmente lembrarei do cartunista como o autor das caricaturas que acompanham o texto do filósofo francês Daniel Bensaïd no livro “Marx, manual de instruções”, da Editora?????????????????????????????? Boitempo [22], livro que faz parte da coleção “Marxismo e Literatura” que li há poucos meses e conta com um cartum que é extremamente atual e nos convida à reflexão onde o desenhista ilustra a polêmica tese central da crítica da religião de Feuerbach, na qual conclui que Deus não criou o homem, e sim o contrário.

Tão importante quanto a defesa das liberdades de expressão e imprensa é a defesa intransigente da laicidade do Estado e o combate ao fundamentalismo religioso, que não é uma exclusividade do Islã, além de combater todas as formas de imperialismo. E que o “amor seja mais forte que o ódio” e nenhum massacre seja feito “em nome de Deus”.

Veja mais: Veja outras capas da revista mostrando Jesus Cristo, os Papas Bento e Francisco, os presidentes Hollande e Sarkozy, além de ativista do grupo Femen. [23]

Fontes:

[1] Huffington Post | Charlie Hebdo shooting: 12 dead in attack on Paris satirical newspaper

[2] BBC Brasil | “Regulamentar mídia pode ser bom para liberdade de expressão”, diz enviado da ONU

[3] Folha de S. Paulo | “Liberdade de imprensa virou liberdade de empresa”, diz escritor

[4] R7 | Há mais de 20 anos, capas e charges controversas do Charlie Hebdo causam revolta e polêmica

[5] Folha de S. Paulo | Jornal norueguês publica polêmica charge de Maomé

[6] Esquerda.Net | Caricaturas de Maomé: Charlie Hebdo absolvido na França

[7] Wikipedia | Charia Hebdo

[8] Esquerda.Net | Redação do “Charlie Hebdo” incendiada em Paris

[9] G1 – Livro controverso de Houellebecq é lançado em uma França comovida

[10] Carta Capital | Livro de Houellebeck inflama debate sobre o Islã

[11] Brasil de Fato | “É cedo para responsabilizar grupos islâmicos pelo ataque em Paris”, diz professor

[12] Wikipedia | Atentados de 22 de junho de 2011 na Noruega

[13] Islam BR | Subúrbios populares e expansão do islamismo revelam a questão social na França

[14] Opera Mundi | “Islamofobia virou ideologia rotineira na França” analisa autor de livro sobre muçulmanos

[15] BBC Brasil | Tribunal Europeu mantém proibição de uso de véu na França

[16] Público | França indignada com ataque a jornal satírico que fez capa com Maomé

[17] Brasil 247 | Latuff: “Atiradores contribuíram com a islamofobia na Europa”

[18] Pop | Cartunistas brasileiros lamentam morte de Wolinki, vítima do ataque terrorista à revista francesa

[19] EBC Agência Brasil | Muçulmanos condenam ataque ao jornal Charlie Hebdo

[20] Wikipedia | Choque de Civilizações

[21] Extra | Charge de cartunista morto em atentado à revista Charlie Hebdo falava sobre atentados terroristas

[22] Catálogo Boitempo Editorial | Marx, manual de instruções

[23] G1 | Além de Maomé, Jesus, o papa e políticos foram capa do semanal

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