Je suis contra la tarifê!

10924768_10205470497989069_6199179920400736830_nNesta sexta-feira (9) aconteceram manifestações em diversas cidades pelo Brasil convocadas pelo Movimento Passe-Livre [1] contra o novo aumento das passagens do transporte público. Mais uma vez a juventude e os trabalhadores resolveram se mobilizar coletivamente para lutar por seus direitos e contra as injustiças e desmandos do poder público, indiferente às principais demandas da população organizada. [2]

Aqui no Rio de Janeiro o aumento de 13,3% decretado pelo Prefeito Eduardo Paes aconteceu no último sábado com as passagens de ônibus passando a custar proibitivos R$3,40 [3]. O Ministério Público do Rio de Janeiro tentou suspender na Justiça o aumento, já que o contrato permite apenas o reajuste para compensar a inflação e o custo das empresas, valor que seria inferior aos 40 centavos de aumento proposto segundo a ação perpetrada [4].

A concentração começou na Cinelândia onde foi decidido coletivamente o trajeto do ato que contou com mais de 2 mil manifestantes dentre coletivos, sindicatos, partidos de esquerda e independentes que seguiram pela Rua Araújo Porto Alegre, entrando na Primeiro de Março e descendo até a Presidente Vargas, onde seguiram até a Central do Brasil. Policiais militares acompanharam o ato que atraiu a atenção e o apoio de diversos trabalhadores que apoiaram das janelas dos prédios e ônibus a passeata pelas ruas do Centro.

Em Belo Horizonte o aumento das passagens foi suspenso com uma liminar concedida na tarde de ontem por uma ação popular movida pelo Coletivo Margarida Alves [5]. Já na cidade de São Paulo o ato teve mais de 10 mil pessoas acabou em repressão quando o pelotão de 800 policiais não suportou as provocações de um pequeno grupo de Black Blocks e decidiu encerrar a manifestação a 200 metros do fim do percurso na Avenida Paulista jogando bombas de efeito moral contra a multidão [6].

Parecem ter esquecido que foi exatamente o aumento das tarifas a gota d’água do maior levante juvenil e popular da História do país em 2013, quando mais de 2 milhões de pessoas – 1 milhão só no Rio de Janeiro – tomaram as praças e ruas para expressar toda a indignação e descontentamento com a ordem política no país, exigindo melhores condições econômicas e sociais de existência, principalmente nas caóticas metrópoles brasileiras. Não foi só pelos 20 centavos! [7]

O problema da mobilidade urbana sempre foi um tema caro ao povo carioca e tem sido motivo de protestos da população por aqui pelo menos desde o final do século XIX com o episódio que ficou conhecido por “Revolta do Vintém”, um levante popular que para muito “além dos 20 réis” também expressou o desgaste do próprio regime político que viria a cair menos de 10 anos depois com a instauração da República [8].

FORA O VINTÉM!

No final de  1979 foi anunciado pelo ministro da Fazenda do Império o novo “imposto do vintém”, uma taxa de um vintém, ou vinte réis, que passaria a ser cobrada sobre o valor das passagens dos bondes à partir do primeiro dia do ano seguinte. E assim como em 2015, o início do ano de 1880 foi de muita luta popular [9].

Antes mesmo da implementação da taxa, quando Coroa e Parlamento ainda discutiam sobre o imposto, diversos artigos na imprensa já se posicionavam contra a cobrança do vintém. O principal argumento era que o imposto incidiria da mesma forma sobre ricos e pobres. Os bondes de tração animal eram o principal meio de transporte na então capital do Brasil Imperial e com a nova taxa pagariam a mesma quantia um “rico comerciante que habitava uma chácara em botafogo e um operário humilde residente num casebre na Cidade Nova”. [10]

No fim de dezembro uma multidão se reuniu em praça pública para expressar seu descontentamento com a medida que atingia principalmente os mais pobres, já carentes de moradia, emprego e saneamento básico. Os cerca de 5 mil manifestantes se reuniram para ouvir o jornalista Lopes Trovão, dono do Gazeta da Noite, e seguiram até o Campo de São Cristóvão, sede do palácio imperial (hoje Museu Nacional), para entregar ao Imperador Dom Pedro II um manifesto que exigia a diminuição do valor das passagens. Mas tanto naquela época quanto hoje nossos imperadores governantes se mostram insensíveis ao clamor do povo, e eles acabaram sendo contidos pelas autoridades policiais.

A grande imprensa conservadora, através da circulação de boatos sobre a grande manifestação que se avizinhava, apelou para a manutenção da “lei e ordem”. Pediu que os descontentes elegessem bons políticos que atendessem aos anseios do povo ao invés de protestar nas ruas, nada diferente do papel que se prestam ainda hoje. Já Trovão, republicano, abolicionista e uma das principais lideranças daquele levante popular, convocou os cariocas a reagirem pacificamente contra o aumento abusivo, como fazem ainda hoje os jornalistas progressistas e midialivristas, contrários aos oligopólios midiáticos sustentadores do regime e do poder econômico [11].

Charge de Ângelo Agostini sobre a Revolta do Vintém

No primeiro dia de 1880 eclodiram focos de protesto de populares simpatizantes à causa em diversos pontos da cidade, principalmente nas ruas do Centro. Alguns revoltosos chegaram a espancar os condutores dos bondes e esfaqueavam as mulas que serviam de tração, além de construir barricadas com as pedras arrancadas das ruas, respondendo à intimidação dos policiais com pedradas, garrafadas e até tiros de revólver.

Uma multidão se reuniu no Largo de São Francisco, um dos principais pontos de partida e chegada da maioria dos bondes, aos gritos de “Fora o Vintém!”. Foram surpreendidos pela chegada de tropas do exército convocadas para ajudar a polícia, abrindo fogo contra a população revoltosa deixando uma dezena de mortos e feridos.

O Largo São Francisco e arredores, principal local da luta contra o aumento dos bondes, também ganhou notoriedade em 2013 por ser ali no IFCS (Instituto de Filosofia, Ciências Sociais e História da UFRJ) o local dos fóruns do Bloco de Lutas, onde foram organizadas as mobilizações na cidade do Rio. Na foto abaixo podemos ver o Largo São Francisco tomado por jovens em uma plenária horizontal onde os passos do movimento foram decididos.ifcs_int

Mais tarde surgiriam denúncias de deputados e senadores sobre tentativas da polícia em ocultar da opinião pública as mortes ocorridas na rua Uruguaiana, sepultando clandestinamente os mortos recolhidos naquela noite. Não diferente das tentativas da mídia em esconder as reações desproporcionais da polícia atacando os manifestantes [12] ou do ajudante de pedreiro Amarildo, da Rocinha, que teve seu corpo ocultado após sua morte “acidental” em uma sessão de tortura na própria sede da Unidade de Polícia “Pacificadora”, e que ganhou notoriedade mundial ao cair na boca do povo que estava nas ruas [13].

O GIGANTE ACORDOU!

A “Revolta do Vintém”, que durou entre 28 de dezembro de 1879 e 4 de janeiro de 1880, apesar de não ter caráter republicano foi uma expressão do descontentamento geral da população com o regime monárquico, e indício das mudanças políticas, sociais e econômicas do final do Império, antecedendo a República que seria proclamada 9 anos depois, em 1889.

Mas se no século XIX a luta não foi apenas por 2o réis, tampouco as lutas no Rio de Janeiro do século XXI são apenas por 20 ou 40 centavos. Hoje os monarcas são outros, mas na falta de diálogo e canais de participação popular nas decisões políticas as mobilizações com ocupação do espaço público têm sido a principal ferramenta de luta dos trabalhadores e da juventude em todo o planeta, da “Primavera Árabe” ao “Occupy Wall Street”, passando pelo movimento dos “Indignados” na Espanha dentre tantos outros como aponta o sociólogo espanhol Manuel Castells em seu livro “Rede de Indignação e Esperança” onde mostra como a internet foi usada nessas manifestações recentes para “articular mentes, criar significado, e contestar o poder” [14].

E os protestos que sempre têm seu estopim como foi o caso dos 20 centavos aqui no Brasil, acabam abarcando toda a indignação do povo contra o próprio sistema político e econômico, que mesmo com um verniz de “democrático”, coloca o lucro de poucos acima do bem-estar da maioria da população.

Os próximos atos já estão marcados para a próxima sexta-feira, dia 16, e mais uma vez a juventude e os trabalhadores organizados vão se mobilizar para exigir seus direitos no calor das ruas. A fissura no sistema já é clara, mas só o tempo dirá até onde chegaremos.

Fontes:

[1] Movimento Passe-Livre

[2] Último Segundo | Quatro capitais terão protestos contra tarifa de transporte nesta sexta-feira

[3] Extra | Paes afirma que aumento da tarifa de ônibus é para custear gratuidades e melhorias na frota

[4] Consultor Jurídico | MP do Rio de Janeiro tenta suspender o aumento da tarifa de ônibus

[5] Estado de Minas | Justiça suspende aumento das passagens de ônibus de BH

[6] Carta Capital | PM reprime manifestação a 200 metros do fim

[7] Juntos! | Levante juvenil e popular no Brasil: o gigante acordou!

[8] Ronaldo Pereira de Jesus | A Revolta do Vintém e a Crise na Monarquia

[9] UOL Educação | Revolta do Vintém: o povo contra o aumento da passagem de bonde

[10] Gazeta de Notícias | 02 de dez. 1879. p.1. | apud DE JESUS, Ronaldo Pereira

[11] Donos da Mídia

[12] Exame | PM do Rio incitou violência contra manifestantes em 2013

[13] Terra | Delegado confirma tortura de Amarildo; polícia não sabe onde está o corpo

[14] Folha de S. Paulo | Autor apresenta análise sobre movimentos sociais na era da internet; leia trecho

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2 comentários sobre “Je suis contra la tarifê!

  1. Cara, teu texto ficou genial! Amei a tua abordagem história e fazendo esta analogia com nossos tempos! Minha admiração! Abraços!

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