Grécia e o despertar da Democracia

Na visão eurocêntrica hegemônica a Grécia é considerada o “berço da civilização ocidental” tendo o povo grego da Antiguidade nos legado, dentre outros, a filosofia, a dramaturgia, a política e ainda a ideia de democracia surgida por volta do século V a.C.. A palavra demokratia (δημοκρατία) é a combinação da raíz demos (δῆμος) que significa “povo”, acrescida de kratos (κράτος), “poder” ou “Estado”. Democracia pode então ser compreendido como “governo do povo” denotando um regime político em que supostamente a maioria da população tomaria nas mãos as rédeas da política.

Em “A Política” [1], o filósofo Aristóteles, discípulo de Platão na Academia, classifica três tipos de comportamento político: a monarquia (governo de um só), a aristocracia (governo dos melhores) e a politeia (governo de muitos). Para cada uma dessas formas havia ainda suas formas degradadas: a tirania, a oligarquia e a democracia. Entendendo aí democracia como um modelo onde não haja verdadeira igualdade política entre todos. Ainda assim era para Aristóteles, dentre as piores, a melhor forma de governo.

A Democracia foi a forma de governo adotada na antiga cidade-Estado de Atenas, tendo início com as reformas propostas por Sólon em 594 a.C., que limitou o poder da aristocracia e ampliou o número de pessoas a participarem da vida pública da pólis. Mesmo sabendo que aquela forma antiga de democracia ateniense não era um governo de todo o povo (mulheres e escravos não tinham direitos políticos por serem ambos propriedades privadas, por exemplo), ela é considerada a matriz das democracias modernas, a ideia de uma forma de governo onde os homens livres debatiam os rumos da política na ágora, o espaço público, e podiam exercer a democracia direta tomando as decisões de governo através do seu voto em assembleias. [2]

Já as democracias representativas modernas nas quais o povo elege seus representantes políticos surgiram no século XVIII com as revoluções burguesas como a Revolução Francesa, feita sob os ideais de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” [3]. Mas tanto esses ideais quanto a própria ideia de democracia encontram-se (desde sempre) ameaçados.

Segundo a organização não-governamental Oxfam a riqueza nas mãos de 1% da população mundial subiu de 44% para 48% do total dos recursos mundiais no ano passado. O estudo da ONG britânica aponta ainda que se o ritmo atual de crescimento permanecer, em 2016 esse mesmo 1% mais rico deterá mais riquezas acumuladas que todo o restante dos 99% das pessoas no planeta!!! [4]

Esse pequena elite de 1% são os donos e acionistas das grandes corporações, de grupos industriais, dos bancos, da grande mídia e do capital financeiro. Esses mesmos que em um sistema político voltado para o lucro corrompem a ideia de democracia financiando as campanhas dos políticos que mantém o sistema funcionando e os privilégios intactos.

Por isso, o que chamamos de democracia é apenas formal, pois quem está no comando são esses grandes “oligarcas”. Vivemos uma autêntica “plutocracia” (ploutos em grego significa “riqueza”), o “governo do dinheiro”, ou a “ditadura do capital”, apoiada pela grande mídia! [5]

Mas se o povo grego foi responsável por criar no século V a.C. a ideia de democracia, eles podem estar prestes a reiventá-la no século XXI, neste domingo, 25 de janeiro, que pode entrar para a História.

“Quem paga a banda, escolhe a música”

Hoje aconteceram as eleições legislativas para definição de um novo governo na Grécia [6]. O governo teve que antecipar o pleito após seu candidato não obter a maioria necessária para eleger um novo primeiro-ministro no lugar de Antonis Samaras, da Nova Democracia (ND).

O favorito nas pesquisas é Alexis Tsipras [7], líder do Syriza, um partido da esquerda radical que se opõe às medidas de austeridade impostas pela “Troika”, formada pelo Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional (FMI) e a União Europeia. Um dos países mais atingidos pela crise no velho continente, a Grécia se encontra hoje em um estado de calamidade social, com desemprego gritante, salários baixos e cortes nos gastos públicos.

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Charge do Latuff: povo grego de “cintos apertados”

Uma possível maioria do Syriza representará uma vitória do povo grego que seguirá a risca o ditado que diz que quem paga a banda, escolhe a música. Todos os últimos governos tocaram com maestria a melodia do neoliberalismo, seguindo com disciplina a batuta da maestra Merkel. Tanto os partidos da direita tradicional quanto os da social-democracia e os antigos PC’s, já adaptados à ordem, souberam tocar a partitura em uníssono.

A “orquestra” União Europeia cumpriu tão bem o seu papel que até recebeu um Nobel da Paz em 2012 entregue por “seus esforços em prol da paz, da reconciliação, da democracia e dos direitos humanos na Europa”, além de seu “papel estabilizador” que criou no continente “um espaço de paz, depois de ter sido um espaço de guerra” [8]. É claro que essa “estabilidade” é constantemente chacoalhada pelos acordes dissonantes das milhares de pessoas que foram às ruas por toda a Europa protestar contra as medidas de austeridade. O povo, os 99% não aceita mais pagar pela crise causada pelo 1%.

As imagens e relatos que chegaram da Europa são similares ao ocorrido no Brasil. Aqueles que foram às ruas se manifestar contra a subordinação dos governos aos interesses econômicos foram recebidos com brutalidade pelas forças policiais, mantenedoras da laureada “estabilidade”. [9]

Um ano após a ebulição de 2011 dos trabalhadores, da juventude e do povo europeu que foram às ruas e ocuparam praças de Madri à Atenas protestar contra as medidas de austeridade [10], o Nobel de 2012 foi tão simbólico quanto aquele recebido pelo presidente estadunidense Barack Obama com sua “Guerra ao Terror”, só para ficarmos em um único exemplo [11] .

Mas hoje o povo grego pode se decidir por uma nova alternativa. O companheiro Thiago Aguiar do Juntos! está na Grécia acompanhando as eleições e participou do histórico comício de Omonia onde presenciou a multidão aplaudindo Tsipras após propor uma conferência sobre a dívida europeia, semelhante àquela acontecida no pós-guerra para renegociar a dívida alemã. Tsipras lembrou que a Alemanha terá a oportunidade de cancelar a mesma dívida que a Grécia cancelou em 1953 [12].

Greece Elections

Histórico comício de Omonia (22/01/15)

Uma outra alternativa pela esquerda radical

O filósofo marxista esloveno Slavoj Žižek lembra que os críticos da nossa democracia institucional “muitas vezes se queixam de que, via de regra, as eleições não oferecem uma verdadeira escolha”. A escolha que temos que fazer é sempre entre a centro-direita e um partido de centro-esquerda “cujos programas são quase indistinguíveis”. [13]

Na Grécia há o ND e o PASOK.  Já aqui no Brasil a (falsa) polarização é entre o PSDB e o PT [14], e todos observaram como a presidenta Dilma Rousseff tomou as mesmas medidas econômicas neoliberais “impopulares” que advertia que Aécio (PSDB) e Marina (PSB) tomariam. [15]

O povo grego rompeu com essa polarização, mesmo sob a campanha do medo orquestrada pela direita e pela grande mídia mundial, bem expressa nas linhas editoriais dos grandes jornais como O Globo, que em janeiro deste ano trouxe um editorial sob o alarmante título “Grécia ameaça frágil recuperação na Zona do Eeuro”, suscitando a possibilidade da saída do país da Zona do Euro. [16]

Não é de se espantar que a opinião dos veículos das Organizações Globo pertencente à família Marinho seja de repúdio a um governo do Syriza, tendo em vista que tal medida, se aplicada no Brasil, chocaria de frente com os interesses da família mais rica do país, segundo o ranking da revista Forbes. [17]

O povo grego resolveu apostar na “nota dissonante” tocada pelo Syriza, uma coligação da esquerda radical (nos moldes do que é o PSOL no Brasil), que promete exercer a vontade da maioria do povo: renegociar a dívida para retomar o crescimento, os empregos, e os serviços públicos, invertendo a lógica e desafiando os interesses daquele 1%, como os banqueiros alemães e franceses, principais detentores dos títulos da dívida grega. [18]

E dessa forma o povo grego se encontra neste início do século XXI próximo da possibilidade de reinventar a ideia de democracia que criaram na alvorada do século V a.C.. Os impostos pagos pelos cidadãos devem estar a serviço dos interesses da maioria da população, e não nas mãos dos grandes oligarcas globais.

Apesar de todo o sentido pejorativo que a palavra “radical” tem no Brasil, ser radical é “ir até à raiz”. Retomar o real significado de “radical” é tão importante quanto retomar a própria ideia da democracia, que é fazer dela um verdadeiro “governo do povo”. E como o próprio Tsipras mencionou, ele não vai abolir os memorandos da troika, quem o fará será o povo grego através do seu voto [19]. Com o voto o povo grego estará exercendo sua crítica à velha política e escolhendo os novos rumos do país expressos no “Programa de Tessalônica”.

A renegociação da dívida e o rechaço aos memorandos da troika abre uma situação inédita e muda todas as regras na Europa, podendo ser seguida por outros países como a Espanha com o “Podemos”, partido de esquerda surgido do caldo político e cultural das mobilizações dos indignados e que também enfrenta o grande capital financeiro e os planos “draconianos” (para ficar em outra expressão grega, devida à Drácon) encabeçados pela primeira-ministra alemã, Angela Merkel. [20]

Novos ventos do outro lado do Atlântico

E que os ventos da Europa soprem também aqui para o Brasil onde mais de 40% do orçamento da União é usado para o pagamento dos juros e amortizações da dívida pública enquanto os serviços públicos estão à míngua [21]. Dívida essa que é escoada para os bolsos dessa mesma elite poderosa de 1% no país que toma conta do Estado através das eleições dos partidos da ordem financiados por esses grandes oligarcas. A Operação Lava-Jato da Polícia Federal é apenas uma prova disso. [22]

Lembro agora das palavras inspiradoras de Stéphane Héssel, antigo membro da resistência francesa falecido em 2013 que ajudou na elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos.  Aos 93 anos, indignado com a situação mundial e na Europa, manteve seu caráter inabalável e escreveu o breve panfleto “Indignai-vos!”, lido por muitos daqueles que foram às ruas por todo o continente:

“Mais do que nunca, hoje temos necessidade desses princípios e valores. Precisamos nos manter vigilantes, todos juntos, para que esta continue sendo uma sociedade da qual nos orgulhemos; não a sociedade dos imigrantes sem documento, das expulsões, das suspeitas aos imigrantes; não a sociedade na qual sejam questionadas as aposentadorias, os direitos adquiridos da Previdência Social; não a sociedade na qual a mídia está nas mãos dos ricos.” [23]

Levando em consideração o fuso horário, as votações nas urnas se encerraram por lá ainda há pouco às 16h (horário de Brasília), e todos devem estar bem ansiosos por lá (estamos por aqui também!). Temos agora que aguardar as notícias com nossos corações do outro lado do Atlantico, e com a certeza de que “nada deve parecer impossível de mudar”

[Atualizado em 26/01/15]

E o Syriza finalmente saiu vitorioso das eleições gerais deste domingo com 36,3% dos votos, obtendo 149 cadeiras das 300 do parlamento. Em segundo lugar o Nova Democracia do atual primeiro-ministro Antonis Samara, seguido pelo partido neo-nazista Aurora Dourada. [24]

Alexis Tsipras, de 40 anos, assume como primeiro-ministro, o chefe de governo mais jovem da Grécia em 150 anos [25], e já declarou no discurso em frente da Universidade de Atenas que a vitória do partido “é um sinal importante para uma Europa em mudança”, pois o povo deu um “mandato claro” ao Syriza “depois de cinco anos de humilhação”, assegurando que vai negociar com os credores uma “nova solução viável” para a Grécia. “O veredicto do povo grego significa o fim da troika”, afirmou. [26]

A campanha contra a ascensão de uma esquerda renovada na Europa vai continuar em andamento, como por exemplo pudemos ler hoje no jornal O Globo que a vitória do Syriza “pode gerar nervosismo em mercado financeiro” [27].

Apesar dessa campanha de medo orquestrada pela mídia, representante do grande capital, o economista ganhador do Prêmio Nobel em 2008 Paul Krugman, em sua coluna no The New York Times já se adiantou a afirmar que “o plano econômico do Syriza é mais realista que o da troika” [28], evidenciando o que já sabíamos.

Ao contrário do mantra neoliberal de Margaret Thatcher conhecido como “TINA” (“There is no alternative”, ou seja, “não há alternativa”) [29] , Alexis Tsipras, Syriza e o povo grego mandaram um recado para todo o mundo: EXISTE SIM UMA ALTERNATIVA!

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Para compreender um pouco mais sobre a situação grega, dê uma olhada nesse ótimo dossiê da Secretaria de Relações Internacionais do PSOL [30]

Fontes:

[1] Aristóteles | A Política

[2] Brasil Escola | Democracia Ateniense

[3] Wikipedia | Liberté, Egalité, Fraternité

[4] BBC Brasil | Riqueza de 1% deve ultrapassar a dos outros 99% até 2016, alerta ONG

[5] Observatório da Imprensa | Grande mídia apoia ditadura do capital

[6] UOL Notícias | Colégios eleitorais abrem na Grécia para eleições gerais

[7] Esquerda.Net | Grécia vai ter eleições a 25 de janeiro, Syriza é favorito

[8] União Europeia | União Europeia – Prêmio Nobel da Paz 2012

[9] Juntos! | Entre o desastre e o futuro – a luta do povo grego

[10] Juntos! | Tomar as ruas, ocupar as praças!

[11] G1 | Obama é o Nobel da Paz de 2009

[12] Juntos! | Thiago Aguiar – O histórico comício de Omonia

[13] Infomoney | Luciana Genro: Dilma, Aécio e Marina são “irmãos siameses” e fogem do debate eleitoral

[14] Blog A Crítica | Žižek: A necessidade urgente de uma vitória do Syriza na Grécia

[15] Catatonia Integral | Felipe Aveiro – Uma breve reflexão para o início de 2015

[16] O Globo | Grécia ameaça frágil recuperação na zona do euro

[17] Terra | Forbes: família Marinho é a mais rica do Brasil; veja a lista

[18] Folha de S. Paulo | Paul Krugman – Quando a austeridade fracassa

[19] Esquerda.Net | Tsipras: “É o povo grego que vai abolir o memorando com o seu voto”

[20] El País | Fenômeno na Espanha, Podemos inspira os descontentes no Brasil

[21] Auditoria Cidadã da Dívida Pública

[22] Carta Capital | Os sentidos da Operação Lava Jato: devolve, Gilmar!

[23] Stéphane Hessel | Indignai-vos!

[24] G1 | Partido de esquerda Syriza vence eleições na Grécia

[25] G1 | Alexis Tsipras assume como primeiro-ministro da Grécia

[26] Esquerda.Net | Tsipras: “O veredicto do povo grego significa o fim da troika”

[27] G1 | Vitória de Syriza pode gerar nervosismo em mercado financeiro

[28] The New York Times | Ending Greece’s nightmare

[29] Wikipedia | There is no alternative

[30] Secretaria de Relações Internacionais do PSOL | Dossiê Grécia

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