Um monstro que emerge da lagoa

Um vídeo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) do Ceará que circula pelas redes sociais tem dado o que falar esta semana [1]. Durante um culto em Fortaleza, um exército de rapazes uniformizados entra marchando e se enfileira pelo templo. Além de baterem continência, fazem uma espécie de juramento onde afirmam estar “prontos para a batalha”. Um líder então pergunta do altar: “Gladiadores, o que é que vocês querem?”. No que os eles respondem, gritando: “O altar, o altar, o altar”.

O Deputado Federal Jean Wyllys (PSOL), uma das principais vozes no Congresso Nacional a defender a laicidade do Estado, expressou sua preocupação ao republicar uma foto da “milícia” em sua conta no Instagram, onde classificou como “chocante” o vídeo. O parlamentar afirmou ainda que o fundamentalismo religioso no Brasil “ameaça as liberdades individuais, a diversidade sexual e as manifestações culturais laicas”. [2]

Jean ressaltou que esse fundamentalismo religioso tem sido negligenciado pela intelectualidade brasileira, bem como por políticos de todas as matizes, “ao mesmo tempo em que é incorporado, de maneira irrefletida, por quase todos os partidos e diferentes governos”, pontua.

Segundo nota divulgada pela instituição após a polêmica, o grupo é chamado “Gladiadores do Altar” e é composto por membros voluntários da Força Jovem Universal, um projeto de orientação e formação de jovens “para a propagação da fé cristã”. O grupo atua desde janeiro deste ano. [3]

Mas até que ponto o fundamentalismo religioso pode ameaçar a nossa democracia? Faz algum sentido a comparação entre o “exército cristão” e as milícias jihadistas do Estado Islâmico? O que quer a Igreja Universal e como atuam os parlamentares da chamada “bancada evangélica”?

Tentarei neste artigo apresentar algumas questões pertinentes a esse importante debate além de responder alguns dos questionamentos levantados por essa polêmica.

“NÃO FARÁS PARA TI IMAGEM ESCULPIDA…”

Na última quinta-feira (26) foi divulgado na internet um vídeo que mostra integrantes do Estado Islâmico destruindo estátuas milenares em um museu na cidade de Mosul, norte do Iraque. Nas imagens que correram o mundo podemos ver os jihadistas empurrando as imagens de cima de seus pedestais, enquanto outros completam o quebra-quebra com golpes de marreta. A destruição desses patrimônios da humanidade é acompanhada de versos do Corão, livro sagrado para o Islã. [4]

A destruição desses importantes artefatos históricos, testemunhos da civilização assíria que existiu no norte da mesopotâmia, teve um motivo: Maomé, o profeta do Islã, teria também destruído diversos “ídolos” ao conquistar Meca no século VII. As relíquias em questão (algumas datavam do século 7 a.C.) não teriam sido destruídas naquela época por estarem encobertas, e só posteriormente foram escavadas por “adoradores do demônio”.

Historiadores e arqueólogos têm demonstrado grande preocupação com essas ações do grupo extremista e alertam para o perigo que correm os mais de mil sítios arqueológicos que existem em Mosul, antiga capital do Império Assírio e atual capital da província de Nínive, controlada pelo Estado Islâmico desde junho de 2014.

640px-Human_headed_winged_bull_facingA conhecida estátua do touro alado que ilustra as moedas iranianas desde 1950 é uma das imagens que também ficou em ruínas. A cada marretada a história e essa importante herança da humanidade vêm sendo esfaceladas pelo fundamentalismo religioso. [5]

O pesquisador Arlindo Machado em seu ensaio “O Quarto Iconoclasmo” [6] lembra que de tempos em tempos na história da cultura humana retorna o surto do iconoclasmo (do grego eikon, imagem + klasmos, ação de quebrar), “manifesto sob a forma de horror à imagens, denúncia de sua ação danosa sobre os homens e destruição pública de todas as suas manifestações culturais”.

Na mitologia bíblica, por exemplo, Moisés quebra as tábuas da lei em um acesso de fúria ao observar seu povo adorando a imagem de um bezerro dourado no deserto do Sinai. A interdição das imagens é um dos dogmas fundamentais na tradição judaico-cristã, tal como podemos encontrar expresso em alguns trechos do Velho Testamento: [7]

“Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te curvarás diante delas, nem as servirás” (Êxodo, 20:4-5)

“Não fareis para vós ídolos, nem para vós levantareis imagem esculpida, nem coluna, nem poreis na vossa terra pedra com figuras, para vos inclinardes a ela” (Levítico, 26:1)

“Maldito o homem que fizer imagem esculpida, ou fundida, abominação ao Senhor, obra da mão do artífice, e a puser em um lugar escondido” (Deuterônimo, 27:15)

Por sua vez o Islamismo, religião abraâmica com a mesma origem que o Judaísmo e o Cristianismo [8], também aboliu as imagens ao longo de sua trajetória, embora as interdições sejam menos explícitas que na Torá. O versículo 5/40 do Corão [9], por exemplo, proíbe as “pedras revestidas”, nome que na Arábia pré-islâmica era dado às pedras esculpidas e adornadas com figuras, geralmente utilizadas em cultos religiosos.

O professor de Comunicação e Semiótica da PUC-SP revela o que aconteceu quando o iconoclasmo foi proclamado como doutrina oficial no Império Bizantino pelo então imperador Leão III, em 730. A doutrina acabou “dilacerando o lado oriental do antigo Império Romano durante mais de um século e provocou uma sangrenta guerra civil, que só terminaria em 843, com a restauração do culto aos ícones na catedral de Santa Sofia, em Constantinopla, atual Istambul”, explica.

Uma nova investida contra as imagens aconteceria já na Idade Moderna, durante o século XVI. Os principais líderes da Reforma Protestante, João Calvino e Martinho Lutero, “pregaram uma insurreição contra as imagens” causando novamente a destruição de ícones religiosos, bem como a perseguição de seus adeptos.

Mas não são apenas as imagens que correm perigo de desaparecer nas mãos dos fundamentalistas: segundo Ghanim al-Ta’na, diretor da biblioteca pública de Mossul, os jihadistas também queimaram a biblioteca onde se encontravam mais de oito mil livros raros e manuscritos antigos. [10]

“TALVEZ OS LIVROS POSSAM NOS TIRAR UM POUCO DESSAS TREVAS”

No romance “Fahrenheit 451”  [11] de Ray Bradbury (1920-2012), publicado pela primeira vez em 1953, anos iniciais da Guerra Fria, somos apresentados a um futuro distópico onde os livros são proibidos e o pensamento crítico suprimido. Na obra de ficção, os bombeiros (“firemen”) são os encarregados da queima de todos os livros, evitando que seja perturbada a ortodoxia que sustenta o sistema dominante.

Em seu “História universal da destruição dos livros” [12], Fernando Báez defende a teoria de que os livros não são destruídos apenas enquanto objetos físicos, mas sim enquanto vínculos da memória. Esse vínculo entre livros e memória “faz com que um texto deva ser visto como peça-chave do patrimônio cultural de uma sociedade e, certamente, de toda a humanidade”, explica.

No livro, o autor descreve como a “biblioclastia” se deu ao longo da História. Era comum entre os povos da Antiguidade, por exemplo, consagrarem sua vitória durante uma conquista – melhor chamar de invasão – queimando a biblioteca do povo inimigo.

Mas assim como a iconoclastia, tal prática não foi exclusiva da Antiguidade. Na Idade Moderna, durante a invasão europeia ao que hoje conhecemos como continente americano, o mundo testemunhou a eliminação sistemática dos documentos escritos dos povos pré-hispânicos.

Os Maias tinham uma das civilizações mais extraordinárias do México antigo, cultura que foi simbolicamente dizimada em 1530 quando, por ordens do rei Carlos V da Espanha, foram queimados todos os seus códices e ídolos, considerados “pagãos” pelos invasores europeus.

“ONDE QUEIMAM LIVROS, ACABAM QUEIMANDO HOMENS”

No século XX não podemos deixar de destacar o “bibliocausto nazista” [13] que precedeu o Holocausto, em que milhões de livros foram queimados pelo regime de Adolf Hitler. Segundo Báez,  “a destruição de livros em 1933 foi apenas o prólogo da matença que se seguiu. As fogueiras de livros inspiraram os fornos crematórios”.

bibliocaustoA barbárie teve começo em 30 de janeiro de 1933, quando o presidente da República de Weimar, Paul von Hindenburg, escolheu Hitler para assumir o posto de chanceler [14]. Em 4 de fevereiro, a Lei de Proteção do Povo Alemão restringiu a liberdade de imprensa, e quaisquer impressos considerados “perigosos” passaram a ser confiscados. No dia seguinte as sedes do Partido Comunista na Alemanha foram atacadas e suas bibliotecas destruídas selvagemente pelos fascistas.

Joseph Goebbels [15] foi então designado para chefiar um novo órgão do Estado, o “Ministério do Reich para a Educação do Povo e para a Propaganda” Em 8 de abril enviou um memorando às organizações estudantis nazistas propondo a destruição dos livros considerados perigosos. Livros de autores judeus como Marx e Freud foram para a fogueira como uma maneira de “eliminar os traços judaicos na cultura alemã”. E até mesmo importantes intelectuais como o filósofo Martin Heidegger aderiram à perigosa ideia de Goebbels, o que mostra que não só os ignorantes e perversos tiveram parte nessas ações ao longo da História. [16]

E não foram apenas autores judeus que entraram na mira dos nazistas. As obras de mais de 5 mil autores foram consideradas subversivas . Dentre eles estavam nomes como Albert Einstein, Heinrich Heine, Ernest Hemingway, Franz Kafka, Thomas Mann, Marcel Proust, Jack London, Stefan Zweig e Vladimir Lenin, por exemplo.

Em 6 de maio as juventudes do Partido Nazista retiraram meia tonelada de livros e folhetos do Instituto de Pesquisa Sexual de Berlim e mandaram para o fogo junto com outros milhares de livros em fogueiras espalhadas por diversas cidades pela Alemanha. Naquela noite do dia 10, com a pira já acesa, Goebbels se dirigiu à multidão para explicar que agiam corretamente ao “entregar às chamas o espírito diabólico do passado”.

O poeta e dramaturgo Bertolt Brecht repudiou a queima de livros em seu poema Die bücherver-brennung, escrito tão logo soube que seus textos também haviam sido destruídos.

Quando o regime ordenou, aos livros com sabedoria perigosa

Queimar em público, carretas os levaram às fogueiras,

E todos os bois foram forçados a fazê-lo, mas

Um dos poetas perseguidos ao analisar, com cuidado

A lista dos queimados, ficou estupefacto, pois seu livro

Fora esquecido. E foi avoando com as asas da ira

a seu escritório e escreveu uma carta às autoridades.

“Queimem-me!”, escreveu com grande pesar. “Queimem-me!

Não façam isso comigo! Não disse

Sempre a verdade em meus livros?

E agora me tratam vocês como se fosse mentiroso!

Ordeno: Queimem-me!”

Sendo assim, podemos concluir que um livro é destruído com a intenção de aniquilar a memória que encerra, isto é, “o patrimônio de ideias de uma cultura inteira”. A destruição de um livro ou outro objeto cultural acontece toda vez que são considerados uma ameaça direta ou indireta a um valor considerado superior. Pensamentos totalitários que são compartilhados tanto pelos fascistas quanto pelos fundamentalistas religiosos.

FUNDAMENTALISMO CRISTÃO

Apesar de encontrarmos com frequência a palavra “fundamentalismo” acompanhada do adjetivo “islâmico”, a prática não é prerrogativa exclusiva  dessa religião. Usamos o termo “fundamentalismo religioso” para nos referir à crença na interpretação literal dos livros sagrados, e o termo surgiu no começo do século XX nos Estados Unidos, quando protestantes determinaram que a fé cristã exigia acreditar em tudo que está na Bíblia. [17]

É  também pensarmos na figura de um muçulmano toda vez que ouvimos a palavra “terrorismo”, mas não podemos esquecer que o terrorismo tampouco é exclusividade do Islã. O maior massacre da história da Noruega desde a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, foi executado por um cristão, Anders Behring Breivik [18]. O assassino que cumpre hoje uma sentença de 21 anos, pena máxima no país, abriu fogo matando 77 pessoas em 2011. E não podemos deixar de criticar a grande mídia que o classifica apenas como sendo de “extrema-direita”, escondendo o que ele é de fato: um cristão fundamentalista.

“Não é porque tem a palavra “cristão” na expressão que o fundamentalismo cristão deixa de ser perigoso e não fará o que já faz o fundamentalismo islâmico”, lembra o deputado Jean Wyllys.

De fato as interpretações literais da Bíblia têm sido um entrave a muitos avanços nas pautas progressistas, principalmente aquelas referentes  às liberdades individuais, como os direitos reprodutivos das mulheres [19], as pautas do movimento LGBT [20] como o casamento civil igualitário e a Lei de identidade de gênero, e mesmo a descriminalização da maconha, droga considerada leve em comparação ao álcool. [21]

Mas será difícil para o Brasil avançar nessas pautas devido à chamada “bancada evangélica”, frente parlamentar no Congresso Nacional que reúne políticos protestantes e que aumentou 14% em relação à legislatura passada, contando hoje com 80 deputados federais de diversos partidos políticos, como Clarissa Garotinho (PR), o pastor Marcos Feliciano (PSC), e o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB). [22]

Segundo o cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB) David Fleischer, a frente é bastante organizada:

“É uma bancada que tem uma liderança e um apoio forte, apesar de reunir seitas bem diferentes. A Igreja Universal ainda é maioria. As igrejas evangélicas têm mais sucesso ao induzir fiéis a votar em pastores e bispos.” [23]

Mas não é difícil apontarmos a hipocrisia e as contradições nas práticas desses que se autoproclamam defensores dos “valores cristãos”. O deputado Jean Wyllys em entrevista já disse que a bancada evangélica é “atravessada por escândalos de corrupção”. [24]

Segundo dados levantados pela Transparência Brasil em 2012, todos os deputados que compunham a bancada naquele ano respondiam a processos judiciais (a maioria por corrupção); 95% deles estavam entre os mais faltosos no Congresso; 87% entre os mais inexpressivos do DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar); e que na última década não havia sequer um projeto de expressão, ou capaz de mudar a realidade do país, encabeçado por um dos parlamentares da bancada.

O recém-eleito presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), um dos políticos que serão investigados por corrupção na Operação Lava Jato da Polícia Federal [25], prometeu neste domingo (1º) durante culto no templo “Vitória em Cristo” que mostrará “aquilo que o evangelho exerce”, e lutará para que os princípios da igreja evangélica sejam “levantados e defendidos” no Legislativo. [26]

E as primeiras ações do novo presidente da Câmara foram provocações ao movimento LGBT [27], como voltar com o projeto de lei, de sua autoria, para instituir o “Dia do Orgulho Hétero”, além de criminalizar a “heterofobia”. Anunciou também que atuará em defesa da manutenção apenas dos casais heterossexuais no Estatuto da Família, excluindo diversas famílias brasileiras da devida proteção legal por parte do Estado.

Outra afronta à laicidade do Estado foi a indicação do deputado Cleber Verde (PRB) para gerir todo o sistema de comunicação da Câmara, composto por uma emissora de TV, uma de rádio, um jornal impresso, o site da Câmara e toda a estrutura de relações públicas da Casa. Um deputado da bancada evangélica, em vez dos funcionários concursados.

Cunha ainda teve a ousadia de tentar se justificar dizendo que aquela era “a Câmara dos Deputados, e não a Câmara dos Servidores”. O papel de Cleber Verde será “definidor da maneira como a Câmara passará a divulgar e cobrir jornalisticamente os debates que interessam politicamente à bancada evangélica”. [28]

Jean Wyllys chegou a criticar esse absurdo, apontando ainda que Eduardo Cunha pretendia contratar uma pessoa de fora do quadro de concursados para comandar a programação da TV. No caso, um dos diretores da Rede Record, ligada à Igreja Universal, que assumiria um Cargo Comissionado de Natureza Especial, com faixa salarial que pode chegar a R$ 16 Mil.

Posto isso, é importante lembrar que devemos defender a liberdade religiosa, que é tanto a defesa da liberdade de crença, quanto da liberdade daqueles que não professam nenhuma fé. E também é compreensível que certos assuntos causem divergências na política. Isso é parte da democracia. Mas é importante lembrar que, como o Estado é laico, as políticas públicas devem passar ao largo de qualquer proselitismo religioso.

E não podemos esquecer também que é a própria laicidade do Estado que garante o direito ao culto das Igrejas Evangélicas. O Brasil já foi oficialmente um país católico, mas após a “independência” surgiu a necessidade de atrair imigrantes europeus, muitos deles protestantes.

A Constituição Imperial de 1824 concedeu aos protestantes certa liberdade de culto, ao mesmo tempo em que confirmou o catolicismo como religião oficial do Império. Até a Proclamação da República os evangélicos enfrentaram muitas restrições no que diz respeito ao casamento civil (e hoje, por sua vez, negam esse direito à população LGBT), uso de cemitérios e educação. [29]

Certamente uma postura dessas vinda do presidente da Câmara é um atentado à democracia, à laicidade e aos direitos humanos no Brasil. Mas será que o fundamentalismo cristão no país apresenta uma ameaça da mesma forma que os fundamentalistas do Estado Islâmico?

LIBERDADE RELIGIOSA PRA QUEM?

Já falei de como o Estado Islâmico destruiu de forma violenta na semana passada importantes patrimônios da humanidade por motivos religiosos. Não é uma preocupação nova, podemos lembrar que em 2001 duas estátuas de Buda de mais de 1.500 anos foram destruídas pelo Taleban no Afeganistão, por serem “ídolos pagãos” [30]. Mas será que isso é uma realidade tão distante do nosso Brasil? Creio que não…

São diversos os casos perpetrados por fundamentalistas cristãos que acontecem em nosso país, que se assemelham em método e violência às barbaridades dos fundamentalistas islâmicos.

Em junho do ano passado, por exemplo, um homem de cerca de 18 anos invadiu a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição e São José, em Montes Claros, Minas Gerais, e destruiu sete imagens de santos. As estátuas foram atiradas ao chão, da mesma forma que os extremistas do Estado Islâmico fizeram na semana passada, e segundo a arquidiocese não puderam ser reparadas. Dentre elas, imagens de Santo Agostinho, São Sebastião, anjos e um Cristo Crucificado. [31]

montes-claros-2Seis padres que estavam em reunião ouviram o barulho e viram o rapaz que tentou fugir, se refugiando em um tempo da IURD. O próprio teria afirmado ser integrante do grupo jovem da igeja evangélica, a mesma que está formando seu exército de “Gladiadores do Altar”.

Outro caso similar ocorreu no mês seguinte, também em Minas, mas na cidade de Sacramento, divisa com São Paulo. Um jovem evangélico de 20 anos invadiu a Igreja da Nossa Senhora do Patrocínio do Santíssimo Sacramento e quebrou diversas imagens, inclusive uma da padroeira da cidade, tombada pelo Patrimônio Histórico Municipal. [32]

A polícia conseguiu prender em flagrante o jovem, que foi encontrado dando murros em uma imagem já destruída de Nossa Senhora Aparecida. Ele se apresentou como evangélico aos policias e afirmou ter destruído as 10 imagens por não concordar com a idolatria, pois não era “condizente ao seu credo”.

E no mês de maio do mesmo ano a celebração da coroação de Nossa Senhora pelos católicos despertou a fúria de cristãos fundamentalistas na cidade de Carrapateira, na Paraíba. Evangélicos, a maioria de denominações neopentecostais, queimaram e urinaram em uma imagem de Nossa Senhora em plena praça pública. [33]

Mas os problemas desse tipo não são só com os católicos. Não podemos esquecer que os principais atingidos pelos cristãos fundamentalistas são aqueles que praticam religiões de matriz africana. Em 2008 foi noticiada uma invasão a um centro de Umbanda no Catete por um grupo de evangélicos, que destruíram várias imagens que estavam sobre o altar. [34]

Segundo os frequentadores, o centro existe há mais de 80 anos, e nunca tinha sofrido nada semelhante. O responsável contou ainda que as provocações do grupo de cristãos começaram na fila:

“Tinha uma fila com mais de 60 pessoas e aí eles começaram a provocar na fila. Aí empurraram a porta e entraram já xingando e quebrando todos os santos.”

Outro grave atentado à memória do nosso país foi a demolição de uma casa centenária na Rua Floriano Peixoto, em Neves, município de São Gonçalo. Lá funcionou o terreiro de Zélio de Moraes, local onde em 1908 surgiu a Umbanda. [35]

Esse patrimônio da humanidade poderia ter sido salvo por um decreto da então prefeita Aparecida Panisset, que já foi do PP e do DEM e hoje está no PDT. Evangélica, “permitiu que o imóvel fosse degradado pelo tempo, vendido e finalmente posta abaixo”. A ex-prefeita tentou se eleger deputada federal no ano passado, mas foi impugnada pela Lei da Ficha Limpa. [36]

Outro caso que chama a atenção são os praticantes do Candomblé que são expulsos das favelas em que vivem por causa da religião. Uma filha de santo que até 2010 morava no Morro do Amor, no complexo do Lins, conta como tinha que esconder sua fé, pois os traficantes, evangélicos, não toleravam a “macumba”. [37]

Terreiros, roupas brancas e adereços religiosos já haviam sido proibidos há pelo menos cinco anos na comunidade, por isso ela frequentava um centro na Zona Oeste, longe de sua casa, e levando consigo o vestido branco escondido na bolsa. No entanto, certo dia por descuido, deixou sua “roupa de santo” no varal. Na semana seguinte foi expulsa pelos traficantes para nunca mais voltar.

“Não dava mais para suportar as ameaças. Lá, ser do candomblé é proibido. Não existem mais terreiros, e quem pratica a religião faz isso de modo clandestino.”

Na Associação de Proteção dos Amigos e Adeptos do Culto Afro-Brasileiro e Espírita [38] há registros de pelo menos 40 pais e mães de santo expulsos pelo tráfico de favelas da Zona Norte do Rio de Janeiro. Os motivos são sempre os mesmos: a intolerância religiosa dos chefes do tráfico, convertidos a diferentes denominações evangélicas, em sua maioria neopentecostais.

Casos desse tipo acontecem até mesmo na Bahia, onde a capital Salvador tem a maior população de afro-descendentes do país. Há alguns anos dois camelôs, evangélicos da Assembleia de Deus, foram presos por agredir uma mãe de santo na capital baiana. Os dois teriam dito a ela o bordão “Jesus lhe ama”, ao que ela respondeu “Ogum também”. Os dois responderam com xingamentos ofensivos e tentaram agredi-la fisicamente. [39]

E como esquecer do Ras Geraldinho, fundador da primeira Igreja Rastafári no Brasil, que foi preso em 2013 e terá que cumprir uma pena de 14 anos por suposto “tráfico de drogas”. A sentença foi resultado dos 37 pés de maconha apreendidos em sua casa em 2012, após invasão sem mandato pela Guarda Municipal de Americana na sede da igreja, uma chácara a 127 km de São Paulo. [40]

A planta é sagrada para os praticantes da religião, e a condenação do líder vai contra as liberdades de consciência e religiosa, garantidas pela Constituição Federal. Mas o preconceito, alimentado em grande parte pelo pensamento conservador da bancada evangélica, é um dos principais fatores que impedem o avanço na Legislação no que tange ao cultivo da planta.

Esses que suscitam a liberdade religiosa para fazer discursos de ódio contra os LGBTs, são os mesmos que ignoram essa mesma “liberdade” legando ao sacerdote uma pena maior que a de muitos assassinos ou estupradores. Esquecem  ainda em sua indignação seletiva que a própria Bíblia, caso a seguíssemos de forma literal, permite o uso da maconha ou qualquer outra planta, já que é uma criação de Deus.

“E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semento, ser-vos-á para mantimento.” (Gênesis, 1:29)

“MORTE AOS SODOMITAS!”

No início do ano assistimos estarrecidos à execução de dois homens que seriam homossexuais pelo Estado Islâmico. Os dois encapuzados foram empurrados de uma torre alta na mesma cidade de Mosul. No meio da multidão que assistia à queda, outros dois homens eram crucificados. [41]

Segundo declaração fornecida à Agência France Press, “o tribunal islâmico em Wilayet al-Furat decidiu que um homem que tenha praticado sodomia deve ser jogado do ponto mais alto da cidade e, em seguida, apedrejado até a morte”. Outros dois homens acusados de “sodomia” pelos jihadistas foram apedrejados até a morte em novembro do ano passado.

Mas não podemos fechar os olhos para o fato de que a cada 24 horas um LGBT é assassinado no Brasil por motivos de LGBT-Fobia. E esse é um problema sistêmico, e não apenas um problema individual de intolerância. [42] E o governo do PT tem sido conivente ao se aliar ao que há de mais reacionário na política brasileira.

Não esqueçamos que a Presidenta Dilma vetou o material didático elaborado pelo Ministério da Educação que propunha uma educação inclusiva para a diversidade sexual. O abandono do chamado “kit gay” pelo governo federal se deu pela pressão da bancada evangélica, além das ameaças de parlamentares em apoiar investigações do então ministro da Casa Civil, Antonio Palocci. [43] Não podemos nos iludir com o atual governo que, permeado por alianças fisiológicas em nome de uma pretensa “governabilidade”, acaba se tornando “refém de suas próprias relações espúrias”. [44]

E as estatísticas de crimes de ódio continuam crescendo no Brasil. Em setembro do ano passado o jovem João Antonio Donati, de 18 anos, foi encontrado morto em um terreno abandonado em Inhumas, região metropolitana de Goiás. Indícios de que o assassinato brutal foi por motivo de homofobia suscitou críticas de movimentos LGBT em todo o Brasil, como do próprio deputado Jean Wyllys que em seu site oficial escreveu que:

“Eu já disse uma vez e vou repetir. Cada uma dessas vítimas tem um algoz material — o assassino, aquele que enfia a faca, que puxa o gatilho, que ‘desce o pau’, como o pastor mala  [referência a Silas Malafaia] pediu numa de suas famosas declarações televisivas. Mas há outros algozes, que também têm sangue nas mãos. São aqueles que, no Congresso, no governo e nas igrejas fundamentalistas, promovem, festejam, incitam ou fecham os olhos, por conveniência, oportunismo, poder e dinheiro, cada vez que mais um LGBT é morto. Eles também são assassinos. Até que ponto vamos ter que esperar para que alguém tenha a coragem de pôr um fim nisto?” [45]

Mas o problema do fundamentalismo cristão no Brasil não se resume à liberdade religiosa e a diversidade sexual somente. Como devidamente apontado pelo deputado, a cultura laica também se encontra ameaçada pelos fundamentalistas.

“O DIABO TEM UMA LADY GAGA QUE CANTA E ENCANTA”

Hoje contratada pela Record, rede que pertence à IURD, Xuxa Meneghel já teve diversas polêmicas e disputas judiciais com a emissora e a igreja. A apresentadora já processou a Universal que a acusou de ter feito “pacto com o diabo”. [46]

xuxa1Em agosto de 2008, a Folha Universal, jornal da igreja distribuído nos templos, noticiou que um pastor estadunidense possuía “provas” de que Xuxa teria vendido a alma por US$ 100 Milhões. Em 2011 foram condenados por danos morais e tiveram que pagar R$ 150 Mil de indenização para ela.

Outros que foram alvos do ódio fundamentalista no Brasil foram os Mamonas Assassinas, que segundo o pastor e deputado federal Marco Feliciano (PSC), teriam sido assassinado por Deus, assim como John Lennon, dos Beatles. [47]

Segundo Feliciano, o acidente aéreo que matou os integrantes da banda pelo conteúdo “inadequado” das canções seguiu a vontade de Deus. “Ao invés de virar para o lado, o manche tocou pra outro. Um anjo pôs o dedo no manche e Deus fulminou aqueles que tentaram colocar palavras torpes na boca das nossas crianças”, afirmou durante um culto em sua igreja.

E até mesmo Caetano Veloso teria sido apoiado por “forças malignas” para fazer sucesso com a música “Sozinho”. Para o pastor fundamentalista, esse seria o motivo dele ter vendido mais cópias com a gravação da música que Tim Maia e Sandra de Sá anteriormente. Para isso, o cantor baiano teria se valido de um encontro com a Mãe Menininha do Gantois, do Candomblé. E o polêmico ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara já chegou a citar até mesmo a cantora Lady Gaga: “O diabo tem uma Lady Gaga que canta e encanta”. [48]

Temos ainda um problema envolvendo as alas das baianas nos Carnavais, tradicionais nos desfiles das escolas de samba. Pouco a pouco vem diminuindo o número de mulheres que se dispõe a sair na escola, pois várias moradoras das comunidades das agremiações foram convertidas às igrejas evangélicas, que demonizam o samba, o carnaval e suas práticas. [49]

“DEUS PEDIU QUE EU ACABASSE COM A TIRANIA NO IRAQUE”

Pode não ser ainda uma realidade aqui no Brasil, mas recentemente o ministro de uma igreja no Novo México, nos EUA, ordenou a queima dos livros da série Harry Potter em uma “fogueira sagrada”, assim como os nazistas fizeram na Alemanha durante a década de 30.

Para o evangélico Jack Brock, os livros representariam “uma abominação em relação a Deus” pois incentivam os jovens “a aprender sobre feitiços, magos e as práticas da bruxaria”. [50]

Se a lógica da frase do poeta Heinrich Heine estiver correta, “onde queimam livros, acabam queimando homens”, há muitos motivos para se preocupar. Não podemos negar a força do fundamentalismo cristão na política dos Estados Unidos. Lembremos que a própria Guerra do Iraque foi iniciada por Bush em 2003 sob uma retórica religiosa de “guerra santa”:

“E agora, novamente, eu sinto as palavras de Deus vindo a mim, ‘Vá conseguir para os Palestinos seu estado, e para os Israelenses sua segurança, e consiga a paz no Oriente Médio’. E, por Deus, eu vou conseguir.” [51]

O envolvimento de fundamentalistas religiosos com a política é sempre perigosa. E os fundamentalistas cristãos (e judeus, não esqueçamos) são ameças à democracia e aos direitos humanos tanto quanto as teocracias islâmicas.

Mas será que existe algum risco real de nos tornarmos uma teocracia? Nesta parte entramos no projeto de poder apresentado pela Igreja Universal do Reino de Deus, liderada pelo bispo Edir Macedo.

“UM GRANDE PROJETO DE NAÇÃO ELABORADO E PRETENDIDO PELO PRÓPRIO DEUS”

Todos devem recordar da inauguração no ano passado do maior templo religioso no país. A recriação do Templo de Salomão [52], o primeiro de Jerusalém, segundo a Bíblia hebraica, possui 100 mil metros quadrados de área construída, sendo quase quatro vezes maior que o santuário de Nossa Senhora Aparecida. Ao custo de R$ 685 Milhões de reais, a construção tem capacidade para abrigar 10 mil fiéis e estacionamento com 2 mil vagas para carros.

Na inauguração da obra “faraônica” as presenças ilustres da Presidenta Dilma Rousseff (PT), acompanhada pelo vice Michel Temer (PMDB), e pelo ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante; bem como a presença do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), atestam o poder e a influência da igreja liderada por Edir Macedo.[53]

Somente a Universal conta com mais de 1,87 milhões de seguidores, segundo o Censo de 2010, do IBGE. Somando as outras denominações os evangélicos somam hoje 42,3 Milhões de fiéis, ou 22,2% da população brasileira. É a religião que mais cresce no país, às custas do declínio lento da religião católica que passou de 73,6% dos brasileiros em 2000, para 64,6% em 2010. Se essa tendência se mantiver, eles já serão 1/3 dos brasileiros na próxima década.

No livro “Plano de poder – Deus, os cristãos e a política” escrito pelo próprio Edir Macedo, o mais bem-sucedido pastor neopentecostal do Brasil, ele parece se considerar um “novo Moisés” e está convencido de estar agindo sob as ordens diretas de Deus, de quem seria intérprete e representante para seu plano messiânico. [54]

“Vamos nos aprofundar, através desta leitura, no conhecimento de um grande projeto de nação elaborado e pretendido pelo próprio Deus e descobrir qual é a nossa responsabilidade neste processo. […] Desde o início de tudo Ele nos esclarece de sua intenção de estadista e de formação de uma grande nação.”

No livro o bispo se dirige aos 40 Milhões de cristãos brasileiros, ou seja, os evangélicos, pois somente esses seriam “verdadeiros cristãos”. Apela para que eles vejam a Bíblia não apenas como um livro religioso, mas também como um “manual” de ação política.

“[A Bíblia] não se restringe apenas à orientação da fé religiosa, mas também é um livro que sugere resistência, tomada e estabelecimento do poder político ou de governo […]. Quando todos ou a maioria dos que a seguem estiverem convictos de que ela é a Palavra de Deus, então ocorrerá a realização do grande sonho Divino.”

Explica também que com a “mobilização geral” dos evangélicos, com sua “potencialidade numérica”, eles podem “decidir qualquer pleito eletivo, tanto no Legislativo quanto no Executivo, em qualquer escalão, municipal, estadual ou federal”. Chega inclusive a comparar o povo brasileiro aos hebreus sob o governo do faraó do Egito, à espera de um “libertador”:

O jornalista Plínio Bortolotti do Observatório da Imprensa explica como a ideia de um “novo Moisés” perpassa todo o livro. Um dos capítulos é dedicado ao “agente apropriado” para assumir o poder, e que isso seria o “início do grande intuito divino”. Isso indica que Macedo “vê a si próprio como o agente apropriado, para ser o Moisés brasileiro”, afirma o jornalista. [55]

E para além da força da crença, não podemos esquecer do poder midiático que eles detêm. Basta lembrarmos que a Igreja Universal é dona da Rede Record, que segundo o portal Donos da Mídia, é o quarto grupo de comunicação do país, com 142 veículos ligados à rede, sendo vice-líder em audiência em todo o Brasil. [56]

E ainda tem o imenso poder econômico das igrejas, que seguem tendo imunidade tributária. Apenas em 2011, segundo a Receita Federal, os diversos templos de diversas denominações (católicas, evangélicas e outras) arrecadaram juntas R$20,6 Bilhões, superior ao orçamento de 15 dos 24 ministérios da Esplanada. Valor esse que aumentou em mais de 11% entre 2006 e 2011. [57]

CONCLUINDO

Todos esses são bons motivos para observamos apreensivos o crescimento do fundamentalismo cristão no Brasil, e principalmente na política, bem como suas ações que se assemelham ao fascismo. Em meme compartilhado pelas redes sociais, a saudação dos jovens “Gladiadores do Altar” é comparada à saudação nazista, mostrando que eles podem estar trilhando um caminho perigoso. Mas até quando permaneceremos apenas observando?MEME IURD

No filme “A Fita Branca”, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes em 2009, o diretor Michael Haneke faz uma análise do caldo cultural que levou ao Holocausto, anos depois, mostrando um pequeno vilarejo na Alemanha às vésperas da Primeira Guerra Mundial.

No início do filme, o médico do vilarejo está voltando pra casa em seu cavalo quando um arame esticado entre cercas o derruba. O culpado não é encontrado. Depois é o filho de um barão local que se torna vítima de um atentado. O que os crimes têm em comum é que têm a forma de “castigo”.

“O fato é que a punição, embalada como disciplina, está enraizada no vilarejo – e a fita branca do título, que o pastor local força dois de seus filhos a usar, como sinal de vergonha por pecados cometidos, é obviamente a antevisão da futura etiquetação antissemita de judeus nos princípios da Segunda Guerra. Costuma-se crer que Hitler chegou ao poder auxiliado pelo rancor que os alemães sentiam após a devastação do país na Primeira Guerra, mas para Haneke o embrião do mal é anterior.” [58]

O diretor austríaco exibe em sua fotografia em preto-e-branco as caras limpas em close-ups, sem traços de culpa, remorso ou mesmo ódio. Em certo momento da película um dos personagens afirma que se trata de um tipo de “ódio pior”, os linchadores odeiam a si mesmos. No plano final, uma missa na igreja do vilarejo, a arquitetura do templo lembra a um salão do Terceiro Reich.

Em 1961 a filósofa alemã Hannah Arendt foi enviada pela revista “The New Yorker” para acompanhar o julgamento do nazista Adolf Eichmann em Israel, acusado de genocídio e crimes contra a Humanidade durante a guerra. As reflexões deram fruto ao livro “Eichmann em Jerusalém” [59] , onde a filósofa naturalizada estadunidense discorre sobre a “banalidade do mal”. Segundo ela, o mal quando atinge grupos sociais é político, e ocorre onde encontra espaço institucional, se instalando no vácuo do pensamento, trivializando a violência.

Eichmann não era necessariamente uma pessoa má, era só um burocrata cumprindo ordens superiores sem questioná-las. Ainda assim foi condenado à forca no ano seguinte. Segundo a também filósofa Marcia Tiburi:

“Por banalidade do mal, ela se referia ao mal praticado no cotidiano como um ato qualquer. Muitas pessoas interpretaram a visão de Arendt como uma afronta à desgraça judaica, enquanto ela – filósofa descomprometida com qualquer tipo de facção, religião, partido ou ideologia – tentava entender o que realmente se passava com a subjetividade de um homem como Eichmann.” [60]

As comparações entre o fundamentalismo cristão com o islâmico pelo deputado Jean Wyllys são pertinentes. O deputado se questiona até quando permaneceremos calados: até começarem a executar os ateus e “infiéis”, ou assassinar homossexuais como fazem no Oriente Médio? É ainda cedo para tirar conclusões definitivas sobre o grupo de “gladiadores”, mas é certo que muitos os vêem com preocupação, não sem razão.

Um grupo de cristãos fundamentalistas com dinheiro, projeto de poder e uma “exército” disciplinado e acrítico podem representar, sem dúvidas, uma ameaça à democracia.

O parlamentar finaliza de forma certeira: “Quando atentaremos de verdade para o monstro que emerge da lagoa?”

FONTES:

[1] G1 | Vídeo de fiéis marchando e batendo continência em culto gera polêmica

[2] Instagram | Jean Wyllys

[3] Estadão | Em culto da Universal no CE, jovens “gladiadores” se dizem “prontos para a batalha”

[4] Folha de S. Paulo | Estado Islâmico aparece destruindo estátuas milenares em vídeo

[5] Opera Mundi | Estado Islâmico destrói estátuas milenares da civilização assíria no Iraque, veja vídeo

[6] MACHADO, Arlindo | O Quarto Iconoclasmo [PDF]

[7] Bíblia Online

[8] Wikipedia | Religiões Abraâmicas

[9] Corão Online

[10] Galileu | Estado Islâmico queima milhares de livros e manuscritos raros em Mosul

[11] BRADBURY, Ray | Fahrenheit 451 [PDF]

[12] BÁEZ, Fernando | História universal da destruição dos livros

[13] United States Holocaust Memorial Museum | Book burning

[14] DW | Há 80 anos Hitler assumia o poder na Alemanha

[15] Wikipedia | Joseph Goebbels

[16] Folha de S. Paulo | Antônio Cícero – Heidegger e o nazismo

[17] Superinteressante | O que é fundamentalismo?

[18] G1 | Assassino extremista da Noruega diz que renunciou à violência

[19] Pragmatismo Político | Mulheres duplamente estupradas pela bancada evangélica

[20] Congresso em Foco | Senadora culpa evangélicos por atraso na pauta LGBT

[21] O Globo | Álcool é 144 vezes mais letal que a maconha, segundo pesquisa

[22] O Globo | Bancada evangélica cresce 14% e deve prejudicar causas LGBT

[23] Sul 21 | Bancada religiosa: a mais ausente, inexpressiva e processada

[24] Terra | Bancada evangélica é “atravessada por escândalos”, diz Jean Wyllys

[25] Folha de S. Paulo | Renan e Cunha são avisados de que estão na lista de políticos da Lava Jato

[26] Pragmatismo Político | Eduardo Cunha promete lutar por “princípios da igreja evangélica” no Congresso

[27] Juntos! | As provocações de Eduardo Cunha não passarão!

[28] Carta Capital | Eduardo Cunha entrega comunicação da Câmara para bancada evangélica

[29] Instituto Presbiteriano Mackenzie | Breve história do protestantismo no Brasil

[30] UOL | Estátua de Buda destruída por talebans no Afeganistão pode ser reconstruída, dizem cientistas

[31] Extra | Homem invade igreja em Minas Gerais, quebra imagens de santos e é capturado por padres

[32] CGN | Rapaz evangélico quebra 10 imagens de santos em igreja

[33] O Povo | Evangélicos queimam e urinam em imagem de Nossa Senhora em Carrapateira

[34] G1 | Evangélicos invadem centro espírita no Catete, diz polícia

[35] Extra | Casa onde nasceu a Umbanda, em São Gonçalo, começa a ser demolida

[36] O Globo | Ministra do TSE nega registro de Aparecida Panisset, candidata a deputada federal

[37] O Globo | Traficantes proíbem Candomblé e até roupa branca em favelas

[38] Associação de Proteção dos Amigos e Adeptos do Culto Afro-Brasileiro e Espírita

[39] Estadão | Evangélicos agridem mãe-de-santo e são presos

[40] Folha de S. Paulo | Criador da 1ª Igreja Rastafári é condenado por plantar maconha

[41] Extra | Estado Islâmico atira homens de prédio por serem gays

[42] Juntos! | Welynton Almeida – Negros e LGBTs: nossa luta é contra o sistema!

[43] Juntos! | Após pressão contra Palocci, governo suspende kit anti-homofobia do MEC

[44] Juntos! | Em defesa da comunidade LGBT, contra a demagogia governista!

[45] Terra | Polícia nega bilhete homofóbico em jovem gay assassinado

[46] UOL – Notícias da TV | Relação de Xuxa e Record tem “pacto com diabo”, nu proibido e “idiotas”

[47] Extra | Em vídeo, Feliciano diz que Deus teria matado John Lennon e os Mamonas Assassinas

[48] Rolling Stone | Marco Feliciano ataca novamente: o alvo agora é Caetano Veloso

[49] O Globo | As velhas baianas somem da passarela

[50] Estadão | Igreja protestante manda queimar livros de Harry

[51] The Guardian | George Bush: “God told me to end the tiranny in Iraq”

[52] Exame | Igreja Universal inaugura réplica do Templo de Salomão

[53] Carta Capital | O poder dos evangélicos na política

[54] MACEDO, Edir | Plano de poder [PDF]

[55] Observatório da Imprensa | Os planos de poder do bispo

[56] Donos da Mídia | Rede Record

[57] Folha de S. Paulo | Igrejas arrecadam R$20 Bilhões no Brasil em um ano

[58] Omelete | Crítica – A Fita Branca

[59] Companhia das Letras | ARENDT, Hannah – Eichamnn em Jerusalém, um relato sobre a banalidade do mal

[60] Cult | Marcia Tiburi – Hannah Arendt

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2 comentários sobre “Um monstro que emerge da lagoa

  1. Belo texto, porém, acredito ter havido uma confusão entre “Ítalo Calvino” (escritor ítalo-cubano do século XX) e “João Calvino” (reformador do século XVI).

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